Título: Sem recuo
Autor: Eliane Oliveira, Isabel Braga, Bernardo da la Peña
Fonte: O Globo, 06/06/2005, O País, p. 3

Apesar das novas denúncias de corrupção, governo amplia ação contra CPI dos Correios

Com a popularidade abalada pelo escândalo nos Correios, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus aliados terão esta semana um desafio maior do que apenas convencer os deputados da inconstitucionalidade do pedido de criação de uma CPI para investigar o caso. Mesmo após as denúncias surgidas no fim de semana, como a divulgada pela revista ¿Época¿, segundo a qual o presidente do PTB, Roberto Jefferson, teria duas rádios em nome de um laranja, a orientação do Palácio do Planalto e da cúpula do PT é para que a ofensiva contra a CPI ultrapasse as portas do Congresso. A idéia é convencer a sociedade de que o governo não quer abafar os escândalos, mas evitar a criação de um palanque para a oposição.

A ofensiva começa hoje, com um pronunciamento em rede nacional de rádio e TV do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Ele vai falar que a Polícia Federal já investiga os casos e tem apresentado resultados no combate à corrupção. Amanhã, Lula entra em campo na abertura do IV Fórum Global de Combate à Corrupção ¿ evento promovido pela ONU. Assessores do governo esperam que ele anuncie medidas contra os desvios de recursos públicos e outras fraudes.

Amanhã, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara começa a analisar o recurso do deputado João Leão (PL-BA) pedindo a inconstitucionalidade da CPI. Mas a oposição pretende pedir vista adiando a decisão.

Na avaliação de articuladores políticos do Planalto, o governo já se desgastou na opinião pública por tentar sepultar a CPI. Portanto, o melhor é evitar que a comissão seja instalada e antecipe o debate eleitoral. Esse e outros assuntos serão discutidos ainda hoje por Lula com os integrantes da coordenação política do governo. Para um ministro, a gravação com o ex-presidente do IRB Lídio Duarte revelada pela revista ¿Veja¿, na qual ele diz que o PTB lhe cobrava uma mesada de R$400 mil, não muda a situação.

¿ Jogou mais lama em Roberto (Jefferson) e no PTB, mas do ponto de vista da CPI não altera. Se o governo não tiver força para derrubar uma CPI com maioria simples, a situação é muito difícil ¿ afirmou o ministro.

Lula quer ministros no Fórum Global

Lula convocou todos os ministros a comparecerem ao Fórum Global e pretende destacar tudo o que foi feito até agora por seu governo para combater a corrupção. Ele vai lembrar, por exemplo, a Operação Curupira, que resultou na prisão de 85 pessoas.

Convictos de que a oposição não dará trégua, os principais integrantes do governo e os líderes da base afinam os discursos que farão no Congresso contra a criação da CPI. Lula ordenou que seja mantida a estratégia no Legislativo, mas quer buscar apoio também na sociedade civil.

¿ Em todas as denúncias, o governo está à frente da investigação. Já há inquérito no caso dos Correios e as descobertas em Mato Grosso só foram possíveis graças ao trabalho do governo ¿ diz o presidente do PT, José Genoino, lembrando, com base em dados da PF que serão distribuídos aos diretórios do PT, que, em 2005, houve 17 operações, com mais de 300 prisões e 56 servidores demitidos.

O governo continuará esbarrando na resistência de parlamentares da base que insistem na CPI. O deputado Walter Pinheiro (PT-BA) acusa o governo de adotar a tática errada e de fazer o jogo de PFL e PSDB.

¿ PFL e PSDB não querem a CPI. E o governo, ao tentar combatê-la, pode dar a impressão de que está defendendo o presidente do PTB, Roberto Jefferson ¿ alertou Pinheiro.

A oposição insiste na cobrança de respostas de Lula.

¿ Lula tem que dar respostas rápidas. Por que impedir a CPI? Em nome de quê ele continua dando aval a essa turma? ¿ cobrou o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM).