Título: Marcos Lisboa, fiel a Palocci, assume o IRB
Autor: Flávia Barbosa/Martha Beck/Maiá Menezes
Fonte: O Globo, 08/06/2005, O País, p. 8

Ex-secretário de Política Econômica toma posse hoje para conduzir processo de venda da carteira de operações comerciais

BRASÍLIA E RIO. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, aproveitou a ordem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de promover uma troca geral no comando do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB-Re) para levar de volta ao governo um antigo colaborador, integrante da equipe econômica de primeira hora: Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do ministério. Ele assume a presidência do órgão no lugar de Luiz Apolônio Netto. Lisboa foi nomeado ontem mesmo e assume o cargo hoje no Rio.

Também pesou na escolha o fato de Lisboa, quando à frente da Secretaria de Política Econômica (SPE), ter acumulado conhecimento sobre o projeto de quebra do monopólio do IRB no setor brasileiro de resseguros: "O ministro da Fazenda solicitou a Marcos Lisboa que, uma vez aprovado o projeto de lei complementar de autoria do Executivo atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados que regulamenta a abertura do mercado de resseguros no Brasil, conduza o processo de cisão da instituição e venda de sua carteira de operações comerciais", afirma a nota da Fazenda.

PT do Rio perde uma de suas indicações

A caneta de Lula riscou da lista de diretores do IRB uma das indicações do PT do Rio no alto escalão do governo federal. O ex-vice-presidente do instituto Manuel Moraes de Araújo foi indicado pelo presidente regional do partido, deputado estadual Gilberto Palmares - que apresentou o nome de Manuel para assumir a presidência do IRB.

- Tenho absoluta confiança em sua capacidade. O Manuel é uma das poucas pessoas do PT do Rio que desempenham função de confiança no governo. A perda de um quadro como ele é ruim para o IRB e para o governo. Mas se o governo tomou essa decisão, não critico. É uma saída à la PT - disse Palmares.

Os diretores Comercial, Luiz Eduardo Pereira de Lucena, de Transportes e Riscos e Sinistros, Murilo Barbosa Lima, e Financeiro, Alberto de Almeida Pais, entregaram seus cargos ontem a pedido de Lula, juntamente com Manuel Moraes e José Apolônio Netto.

Palocci consegue com o novo nome esvaziar as tradicionais indicações políticas para a direção da estatal - que servem de pano de fundo para as denúncias de um esquema de recolhimento ilegal de recursos para o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ). Por isso, a substituição foi entendida como uma intervenção do núcleo duro do governo na estatal.

O ministro Palocci afirma na nota que as substituições não significam um prejulgamento. "Trata-se de uma atitude de desprendimento da diretoria com vistas a permitir uma apuração mais rápida, isenta e maior transparência junto à opinião pública."

COM A BÊNÇÃO DO MINISTRO

Marcos de Barros Lisboa chamou a atenção do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, quando coordenou às vésperas das eleições de 2002 o documento "Agenda perdida". Junto com José Alexandre Scheinkman, professor da Princeton University (EUA), ele organizou o relatório de 57 páginas com propostas para a retomada do crescimento, que teve a participação de 17 economistas e foi entregue a todos os candidatos à Presidência. Palocci, então coordenador da campanha do petista Lula, tomou a publicação como Bíblia e, ao tomar posse como ministro, fez de Lisboa seu secretário de Política Econômica, um dos cargos mais importantes da pasta.

Formulador da política macro e defensor das reformas microeconômicas, Lisboa ganhou desafetos logo no início do governo. Foi chamado de "garoto semi-analfabeto" e "débil mental" pela ex-deputada Maria da Conceição Tavares, espécie de guru da ala desenvolvimentista do PT e que tem entre seus discípulos o senador Aloizio Mercadante. Entre os colegas, Lisboa é visto como um economista competente e versátil, que dedicou parte da carreira às questões teóricas, mas também acumulou experiência com temas sociais, como saúde e criminalidade.

Fez graduação e mestrado na UFRJ e doutorado na University of Pennsylvania, nos EUA. Foi professor-assistente da Stanford University, também americana, e da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio). É autor de um livro, "Preços de produção, método de longo prazo e equilíbrio geral: uma crítica à teoria neo-ricardiana dos preços relativos", e tem capítulos publicados em outros três.

Aos 40 anos, recém-casado, pai de duas filhas, com o terceiro a caminho, Lisboa teria decidido abandonar o cargo que ocupava em Brasília há um ano e meio para ficar perto da família, no Rio. Economistas próximos do agora presidente do IRB, contudo, atribuíram a saída às dificuldades do governo em dar prosseguimento às reformas no Congresso.

Legenda da foto: LISBOA: Conceição criticou