Título: APERTO NA INDÚSTRIA
Autor: Martha Beck
Fonte: O Globo, 13/06/2005, Economia, p. 15

Os juros altos e o câmbio desfavorável às exportações, com o dólar se mantendo abaixo de R$2,80, foram os vilões de oito segmentos da economia no primeiro trimestre de 2005, segundo um trabalho do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O estudo, que analisou os resultados de 101 grandes empresas de 20 setores, revela que esses oito setores tiveram redução nos lucros entre janeiro e março deste ano, na comparação com o mesmo período de 2004. Outros oito registraram aumento nos ganhos e em quatro as contas ficaram estáveis.

- Os resultados são reflexo do que aconteceu com o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de todas as riquezas geradas no país) no início deste ano - afirma o diretor-executivo do Iedi, Julio de Almeida, lembrando que o PIB brasileiro cresceu apenas 0,3% no primeiro trimestre, segundo o IBGE. - O ano de 2005 não será tão favorável quanto o ano de 2004. Eu acredito que o próximo passo é haver mais queda na rentabilidade das empresas - acrescenta ele.

Por outro lado, o estudo do Iedi afirma que houve melhora no perfil das contas do setor industrial. Em geral, as grandes empresas registraram queda em seu endividamento e maiores margens de lucro no primeiro trimestre de 2005, em relação ao mesmo período no ano passado.

Empresas estão menos endividadas

O trabalho afirma, por exemplo, que 43,6% dos recursos que as empresas utilizaram nos três primeiros meses de 2005 (para capital de giro e investimentos) saíram de seus próprios caixas. No mesmo período de 2004, esse percentual era de 39,5%. Isso indica que elas tiveram que buscar menos financiamento externo.

Também houve evolução no perfil do endividamento: os empréstimos de curto prazo passaram de 30% do total no ano passado para 28% este ano, conforme a pesquisa do Iedi. Já a rentabilidade das empresas sobre seu patrimônio líquido, que mede o lucro efetivamente obtido, subiu de 24,1% no primeiro trimestre de 2004 para 28% no primeiro trimestre de 2005.

"Na média das grandes empresas industriais, os resultados recentemente obtidos, aliados à queda nos níveis de endividamento, mantêm a indústria bem posicionada para realizar um novo ciclo de investimentos. Mas parecem crescer os vestígios de que o desempenho empresarial em vários setores já começa a sentir os efeitos de um cenário menos favorável no plano interno, devido aos juros altos e de uma menor rentabilidade exportadora, neste caso, em função da forte valorização da moeda nacional nos últimos meses", pondera o estudo.

Entre os setores que registraram desaceleração nos lucros estão o de bebidas, alimentos, equipamentos elétricos, material de construção e papel e celulose. Já os que continuaram ganhando, apesar do desaquecimento da economia neste início de ano, estão siderurgia, mineração e metalurgia. O documento do Iedi destaca, no entanto, que as empresas desses três setores só mantiveram resultados positivos porque seus produtos são commodities que tiveram grande valorização no mercado internacional.

- Mineração e siderurgia, por exemplo, tiveram aumentos de lucratividade por causa dos preços internacionais valorizados - explica Almeida.

Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), Paulo Safady Simão, os juros altos são o maior problema para o segmento.

- Os juros altos desestimulam a compra de imóveis e os investimentos em infra-estrutura e isso afeta toda a cadeia de produção. Tínhamos uma expectativa de que 2005 fosse ser um ano muito melhor do que está sendo - afirma Safady.

No setor de papel e celulose, analistas afirmam que as empresas estão sem alternativa. No mercado interno, as vendas estão desaquecidas, enquanto no externo o câmbio está reduzindo a rentabilidade das empresas.

- As empresas estão tentando compensar as perdas internas com exportações, mas como o câmbio não está favorável, o problema não se resolve - afirma um especialista do segmento.