Título: PF prende 53 hackers que roubavam correntistas
Autor: Ismael Machado e Isabela Martin
Fonte: O Globo, 21/10/2004, O país, p. 13

A Polícia Federal prendeu ontem 53 pessoas acusadas de desviar dinheiro de contas bancárias pela ìnternet. O grosso da quadrilha estava concentrada no Pará, com desdobramentos no Maranhão, Ceará e Tocantins. Só no Pará foram presas 22 pessoas. A Polícia calcula que o prejuízo a bancos estatais e privados pode superar R$ 240 milhões. Só neste ano, a quadrilha já havia desviado cerca de R$ 80 milhões. Os mais visados são correntistas dos maiores bancos do país: Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, HSBC, Bradesco, Unibanco e Itaú. E grande parte das vítimas é da região Sul.

Esta foi a segunda grande operação da Polícia Federal para prender quadrilhas de hackers. Batizada de Cavalo de Tróia, a operação teve início em novembro do ano passado. No Pará, pelo menos 18 das 22 pessoas presas ontem já haviam sido detidas na primeira etapa da operação.

Mais de 200 policiais e delegados na operação

A PF mobilizou mais de 200 policiais e delegados nos quatro estados, após quatro meses de investigação. A maioria dos presos tem menos de 25 anos e vivia mudando de endereço.

¿- Percebemos que a quadrilha ampliou o volume de saque, aumentou o número de integrantes e expandiu a tecnologia ¿ disse o delegado Cristiano Barbosa Sampaio, que comandou a ação em Belém.

Os acusados serão enquadrados por estelionato, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e violação do sigilo bancário. A pena mínima é de cinco anos. Como já existe uma condenação por crime semelhante no Mato Grosso, a Polícia Federal espera que, desta vez, os criminosos não sejam postos em liberdade, como ocorreu com a grande maioria dos presos da Operação Cavalo de Tróia I.

A PF afirma que o comando da quadrilha está no interior do Pará, região onde o sistema de telefonia, paradoxalmente, não é tão desenvolvido. A origem da quadrilha está, segundo a PF, diretamente ligada a um ex-funcionário da Companhia Vale do Rio Doce especialista em informática. Ao ser demitido em 2001, ele criou um programa para pesquisar dados de pessoas na tentativa de descobrir senhas bancárias. Mais tarde, teria vendido o programa na cidade de Parauapebas, por cerca de R$ 30, dando início, então, à prática criminosa pela internet.

Os primeiros acusados foram presos antes das 7h em Belém. Entre eles, familiares do hacker Wellington Patrick Borges, um dos líderes da quadrilha. Foram detidos o irmão, a mãe, a esposa e a cunhada dele, todos suspeitos de integrar o esquema.

Em Fortaleza, a operação prendeu 12 pessoas da quadrilha, mas dois acusados continuam soltos. Entre os presos estão dois nomes da alta sociedade local: João Airton César Cabral Júnior e José Gerardo Osório Ponte são, respectivamente, diretor e sócio-proprietário do Ideal Clube. A operação na capital cearense envolveu 94 policiais federais e a maioria das pessoas foi presa em casa também pela manhã. O material apreendido reforça as provas contra os acusados e podem revelar detalhes do modo de atuação. O delegado que chefiou a operação na capital cearense, Eliomar Lima Júnior, começa a coletar os depoimentos hoje.

Seis hackers foram presos em São Luís

Na capital do Maranhão, a operação prendeu seis hackers. Dois deles, Kely Safira Campos Pinheiro e Adriel Vieira Mendes, tiveram os mandados de prisão expedidos pela Justiça Federal do Pará. Foram presos também um ex-policial militar Hélio dos Santos Silva, o advogado e ex-candidato a prefeito do município de Santa Inês, Franklin Seba, e outras três pessoas. O superintendente da PF no Maranhão, Francisco Leônidas Gomes da Silva, disse que todos os acusados confessaram os crimes e serão agora indiciados. A operação mobilizou em São Luís dez delegados da PF, cerca de 50 policiais, oito peritos e 15 escrivães.