Título: A mais cara campanha pelo voto
Autor: Michael Moss e Ford Fessenden
Fonte: O Globo, 21/10/2004, O mundo, p. 27
Numa disputa pela Casa Branca cujo resultado deverá depender do número de eleitores que votarem, um exército de grupos de interesse está injetando pelo menos US$ 350 milhões em campanhas de incentivo à participação, e mudando as táticas na eleição presidencial americana. Esses esforços são parte da mais cara guerra pelo voto da História. Envolvem os principais partidos e grupos independentes mas que assumem sua preferência partidária, conhecidos como 527, cujos anúncios com ataques a candidatos têm tido grande influência sobre as campanhas do presidente George W. Bush e do senador John Kerry.
E pela primeira vez uma campanha eleitoral nacional envolve também centenas de organizações civis e interesses empresariais milionários. Esses grupos ¿ entre eles a Câmara de Comércio dos EUA e coalizões de caridade ¿ estão gastando milhões de dólares de doadores que não precisam identificar. E embora os grupos sejam não-partidários, alguns freqüentemente enfatizam questões identificadas com um candidato ou outro.
Os esforços incluem visitas casa a casa, envio de e-mails em massa e campanhas por telefone junto a grupos específicos de eleitores. A investida é mais pesada em estados considerados indecisos. Na Flórida, por exemplo, sindicatos e grupos de direitos civis estão coordenando esforços e dividindo estados por jurisdição, para alcançar o maior número de eleitores possível. O fervor para a participação chegou a Bagdá, onde um lobista republicano está tentando ajudar cerca de cem mil americanos a votar a tempo.
Diferentemente dos grandes partidos e dos 527, os grupos não-partidários não se submetem a leis eleitorais federais que exigem declarar a origem de seu dinheiro.
¿ Nada temos que revelar ¿ disse William C. Miller, diretor da Câmara do Comércio, que tem tentado alcançar eleitores em potencial com o envio em massa de e-mails.
E diferentemente dos partidos e dos 527, os grupos não-partidários não podem promover um candidato ou fazer declarações políticas sem pôr em risco seu status fiscal. Mas podem obter o mesmo efeito enfatizando questões que poderiam ajudar um candidato em particular, ou simplesmente se dedicando a um grupo que tende a votar num partido.
Uma nova coalizão de caridade, Voz Nacional, está usando US$ 80 milhões para motivar eleitores que tendem a ajudar Kerry. Em Highland, Nova York, a irmã Adrian Hofstetter, um freira dominicana de 85 anos, usa o programa na internet da Voz Nacional para convocar minorias e jovens na Flórida para a votação.
¿ Aproximadamente metade deles foi muito receptiva. Eles me agradeceram por chamá-los ¿ disse ela.
Já a Câmara do Comércio tem ajudado mais Bush com seus e-mails que incentivam negócios. Uma empresa de energia não identificada ficou tão animada com o apelo da Câmara que esta semana doou US$ 250 mil. Em Iowa, fabricantes republicanos têm participado do Projeto Prosperidade, de uma organização que incentiva negócios para atingir diretamente trabalhadores com e-mails e folhetos enviados juntos a contracheques. Em cada caso, o texto liga o ato de votar à segurança no trabalho.
Eleitores têm reagido de formas diversas aos apelos. Muitas dessas táticas foram usadas em 2000, mas a escala e a agressividade da guerra pelo voto este ano ultrapassou muito as expectativas de campanhas presidenciais. Este ano, o número de eleitores que irão às urnas poderá exceder 121 milhões. Quatro anos atrás, foram 105 milhões.
Kerry e Bush lançaram ontem novos ataques um ao outro, em visitas a estados cruciais para a decisão nas urnas. O presidente esteve em Iowa, Minnesota e Wisconsin. Já o senador foi a Iowa e Pensilvânia. Recuperando-se de uma operação cardíaca, o ex-presidente Bill Clinton entrará em campo semana que vem para ajudar Kerry. O vice do candidato democrata, John Edwards, criticou ontem duramente a participação da conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, na campanha de Bush. Com agências internacionais.