Título: O deputado que se diz perseguido pela imprensa
Autor:
Fonte: O Globo, 15/06/2005, O País, p. 11

Roberto Jefferson diz no Conselho de Ética da Câmara que só a 'Folha de S.Paulo' merecia sua confiança

BRASÍLIA. Alvo de denúncias desde que a revista 'Veja' revelou, em reportagem de capa, o escândalo da fita com sua participação no esquema de corrupção montado nos Correios, o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) atacou os principais veículos da imprensa brasileira durante o depoimento de ontem. Por isso, explicou, escolheu o jornal "Folha de S. Paulo" para dar as entrevistas em que apontou a existência do esquema do mensalão.

Na visão de Jefferson, o GLOBO, a TV Globo, a Rádio Globo, as revistas "Veja" e "Época" e o jornal "O Estado de S. Paulo" estão determinados a destruí-lo para atender a interesses do governo. Segundo ele, a "Folha" é a única que não está no seu "linchamento". Jefferson voltou a citar uma conversa em que teria pedido a ajuda do ministro da Casa Civil, José Dirceu, para tentar evitar o noticiário negativo.

Dirceu, segundo Jefferson, teria dito que não poderia intervir na "Veja" porque a revista era tucana, mas que teria como fazê-lo no GLOBO, conversando "por cima". Chamando o jornal de " Diário Oficial do governo", ele se contradisse, entretanto, ao reclamar que o bombardeio continuou implacável, mesmo depois da suposta promessa do ministro, tendo dito que Dirceu "não segurou" o GLOBO. E voltou a dizer que só fez as denúncias do mensalão depois de ler o GLOBO do domingo retrasado, 5 de junho, que publicou em manchete a extensão de seu poder na máquina federal:

- No fim de semana seguinte persiste o linchamento brutal, em especial do GLOBO, da TV Globo, da rádio Globo e da revista "Época" contra mim. Eu disse a meus companheiros: matéria encomendada. O GLOBO me atribuiu fatos que não existem para desconstituir minha imagem - disse Jefferson.

Em outro trecho do depoimento voltou ao ataque ao GLOBO, por causa da reportagem "Todos os homens de Roberto Jefferson".

- Dia 5 veio a matéria covarde do Diário Oficial do governo - disse Jefferson.

O deputado reclamou, então, que Dirceu não teve qualquer ingerência no jornal:

-- Não segurou, porque o enfraquecimento do PTB recrudesceu a ação da PF contra o partido -- concluiu Jefferson.

O presidente do PTB explicou, então, por que escolheu a jornalista Renata Lo Prete, do jornal "Folha de S. Paulo", para conceder as duas entrevistas em que faz as acusações do mensalão. Disse que no sábado, dia 4, quando O GLOBO de domingo já estava nas bancas, a mãe de seus filhos ligou do Rio para Brasília avisando que o jornal tinha "oito páginas com matérias para lhe destruir". A "Época" estava na mesma linha, disse.

Então Jefferson contou que ligou para a jornalista da "Folha", que foi de São Paulo para Brasília para entrevistá-lo. O deputado esbanjou deboche ao se referir ao jornalista Expedito Filho, do jornal "O Estado de S. Paulo", órgão também descartado para as entrevistas de Jefferson.

- Podia ser o "Estadão", mas o jornal embarcou no linchamento para me destruir. Olha Expedito! Troglodita passa. General da tropa de choque do Collor passa, mas metrossexual, Expedito? Isso não! - disse o deputado.

Ele concluiu os ataques à Imprensa dizendo que o governo vai colocar o cadáver no colo do PTB, usando o que chamou de "imprensa oficial".

Os veículos citados por Roberto Jefferson não quiseram se pronunciar.

NYT: crise enfraquece o presidente

"A avalanche de acusações de corrupção enfraqueceu tanto a postura do presidente que políticos e comentaristas da imprensa começaram a especular abertamente sobre impeachment", afirma o correspondente no Rio de Janeiro do jornal "New York Times", Larry Rohter, em reportagem publicada ontem sobre o escândalo provocado pelas denúncias de corrupção em estatais e o suposto mensalão no Congresso.

A crise é "a pior a atingir o governo de Lula desde que ele assumiu, em janeiro de 2003, prometendo o governo mais honesto e ético da História brasileira", escreveu Larry Rohter. O "New York Times" frisa que o deputado Roberto Jefferson disse não ter provas e que o PT nega todas as acusações. "Parte do relato de Jefferson, porém, já foi confirmado por outros políticos", prossegue a reportagem de Larry Rohter, que quase já foi expulso do país por ter insinuado que o presidente bebia.

O texto informa ainda que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, é acusado de comprar deputados e se defendeu dizendo ser vítima de chantagem.