Título: DISPUTA SOBRE ORÇAMENTO AMPLIA CRISE NA UE
Autor: Deborah Berlinck
Fonte: O Globo, 16/06/2005, O Mundo, p. 33

França e Alemanha pressionam Grã-Bretanha a abrir mão de desconto. Líderes se reúnem hoje em Bruxelas

PARIS. Depois da crise política e institucional provocada pela rejeição da Constituição européia por franceses e holandeses, os membros da União Européia (UE) entram em choque agora diante de um novo desafio: o orçamento. Uma reunião dos líderes da UE hoje, em Bruxelas, sobre o que fazer com a Constituição e com o financiamento dos gastos do bloco já começa com uma crise aberta em torno de dinheiro - com britânicos de um lado e franceses e alemães do outro.

Jean-Claude Juncker, atual presidente da UE e primeiro-ministro de Luxemburgo, disse ontem estar quase certo de um fracasso da reunião, enquanto o presidente da Comissão Européia, o ex-primeiro-ministro português, José Manuel Durão Barroso, pediu que os países façam um esforço para chegar a um acordo, fazendo um alerta:

- Se não conseguirmos, a União Européia vai afundar numa crise permanente e na paralisia. Todo mundo tem que ceder em alguma coisa.

Londres, Paris e Berlim entraram abertamente em choque na questão do orçamento. Ao sair de um encontro com o presidente Jacques Chirac, anteontem, em Paris, o premier britânico, Tony Blair, que assumirá o comando do bloco no dia 1º de julho, reconheceu que há um "desacordo agudo" sobre o futuro financiamento da UE. O motivo da desavença é a campanha de França e Alemanha para acabar com o desconto de US$6,18 bilhões que beneficia Londres desde 1984 em sua contribuição anual para o bloco.

Segundo Juncker,Grã-Bretanha está isolada

Mas Blair se recusa a rever o acordo de 1984 sem que o bloco concorde em diminuir os gastos com subsídios a agricultores. A maior beneficiária é a França. Blair saiu da reunião com Chirac alfinetando a dupla franco-alemã, que há anos detém, de fato, o comando da Europa.

- Não é mais possível dirigir a Europa como antes - disse Blair, sem meias palavras.

Blair disse a Juncker que a idéia de congelar o desconto em 2007 e depois reduzi-lo progressivamente é inaceitável. E ameaça vetar o orçamento para 2007-2013 se países insistirem nisso. Ontem, numa última tentativa de abrir caminho para uma solução, Juncker sugeriu que o desconto seja reduzido após 2013. Segundo ele, 24 dos 25 países da UE são a favor da revisão - deixando a Grã-Bretanha completamente isolada.

Na briga, reabriu-se o capítulo mais controverso dos gastos: a Política Agrícola Comum, que distribui subsídios agrícolas e vem sendo condenada por países de fora do bloco, sobretudo o Brasil. Os subsídios chegaram a US$55,5 bilhões por ano de 2004 a 2006. Um acordo fechado em 2002 estabeleceu que eles irão para US$59,4 bilhões de 2007 a 2013. Na passagem de Blair por Paris, o primeiro-ministro britânico atacou abertamente os franceses na questão:

- Compreendo que um país queira subsidiar sua agricultura. Mas há um problema quando a UE decide gastar 40% de seu orçamento num setor que representa 2% do emprego - disse.

Os britânicos, com um setor agrícola eficiente, contam com o apoio de Juncker, que disse que os subsídios agrícolas vão estar sob escrutínio nas discussões. Ele duvida, porém, que se chegue a um acordo sobre isso.

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