Título: Dirceu vai à guerra
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 17/06/2005, O Globo, p. 2
Deixar o governo Lula, projeto de sua vida nos últimos 25 anos, foi uma decisão dramática para José Dirceu, que já havia chegado perto dela no caso Waldomiro. Por isso as idas e vindas - tanto as dele como as do presidente. Foi no almoço de ontem, entre ministros do PT, que ele tornou definitiva a decisão que comunicaria ao presidente no fim da tarde, sobre a qual vinham conversando desde a noite de sexta-feira.
Os olhos vermelhos de alguns auxiliares, na ante-sala do gabinete de Dirceu, confirmavam a notícia que procurávamos. Consumara-se o que em outros tempos seria visto como uma cataclisma, mas agora se apresentava como um imperativo, remédio amargo mas fundamental no enfrentamento da crise. Na época do caso Waldomiro, falar na saída de Dirceu era como anunciar o fim do governo. Ao longo desta semana, nem o famoso mercado, com seus nervos sensíveis, reagiu mal à possibilidade. Sinal de que seu momento chegara.
Dirceu fará imensa falta ao governo Lula, do qual tem a memória, conhece os botões que funcionam e os que estão enguiçados. Com sua auxiliar Miriam Belchior montou um dispositivo que dá o status de cada programa de governo. Tem o mapa e o cronograma dos projetos de investimento em infra-estrutura. Talvez sua saída marque o governo Lula como a morte de Sergio Motta e Luiz Eduardo Magalhães dividiu em duas etapas o governo Fernando Henrique. Dificilmente Lula encontrará alguém que o substitua em tão variadas tarefas, mesmo não atuando na frente política. Por isso, o mais provável é que haja uma redefinição do papel da Casa Civil antes da escolha de seu novo ocupante.
Na semana que vem, Lula deve dar seguimento às mudanças. Fala-se na saída dos ministros Aldo, Berzoini e Eduardo Campos, que, como deputados, fortaleceriam a divisão que Dirceu comandará no Congresso para enfrentar a crise. Sem cargo de líder, sem reassumir a presidência do PT, como soldado mesmo. Mas com a disposição de quem vai à guerra disposto a vencer.
A saída dos outros três ministros, entretanto, ainda depende de avaliações de Lula sobre a natureza do Ministério que fará. Uma alternativa é fortalecer o viés partidário, o que seria complicado numa hora de indecisão sobre quem são os aliados. Fortalecer o PMDB, partido a que pertence o relator da CPI dos Correios, pode ser interpretado como barganha para controlar as investigações. A outra hipótese é ampliar a base social do governo, convidando nomes técnicos ou da sociedade civil. O governo será reduzido. Todas as secretarias com status de ministério devem ser subordinadas ao ministro Luiz Dulci na Secretaria Geral da Presidência.
A saída de Dirceu tornara-se uma necessidade, por mais dolorosa que tenha sido para o presidente, para ele mesmo e para o PT. E isso transparecia em todas as fisionomias naquela cerimônia que parecia de adeus, embora o discurso fosse de guerra, ontem à tarde no Palácio.
No Congresso, ele será o general que Lula não tem, embora não deva se exceder na disposição beligerante. O comportamento do PT esta semana, sobretudo no dia do depoimento de Roberto Jefferson, foi deplorável. E o pior, combinaram que não dariam importância ao ataque do inimigo, que reinou sozinho, escarnecendo do governo, de Dirceu, de Genoino e de todo o PT diante das câmeras, que mostravam o show para todo o país. Dirceu levantará o partido, reestruturará a coalizão, seja esta ou a outra em que se pensa, tendo o PMDB como partido preferencial. Mas seu sacrifício só será mesmo eficaz se, para resgatar o patrimônio ético do PT, como disse ontem, seguir a promessa de Lula, de nada tentar abafar, deixar que a chuva das investigações caia sobre todos, e, se preciso, sobre alguns petistas. Seu discurso será vigoroso hoje na reunião do PT em São Paulo.
Muitas vezes Dirceu falou em deixar o governo, inclusive com o próprio Lula. Depois mudava de idéia, pensava nos desafios, na reeleição e ia ficando. Por isso, Lula também nunca tomou a sério suas ameaças, até que a crise atual chegou ao ponto crítico. A saída foi uma construção conjunta entre os dois. A primeira conversa, por iniciativa de Dirceu, aconteceu na sexta-feira à noite. Saíram do Palácio do Planalto perto das 22h. A um visitante do dia, Dirceu tinha dito.
- Vou para a Câmara, lá poderei dizer o que quiser, estarei livre das amarras de ser ministro. Agora é o próprio PT que está sendo ameaçado.
Ao mesmo visitante, Lula dissera:
- Chegou a hora de atender ao desejo do Zé...
Mas Roberto Jefferson ainda não o atacara como na segunda entrevista, não o mandara "sair correndo" como no Conselho de Ética. Isso atrasou o processo, exigiu outras tantas conversas com Lula, as opiniões no interior do governo eram conflitantes.
Lula, que prometera não deixar pedra sobre pedra, perdeu ontem o que foi a pedra angular de seu governo. Mas agora, ao invés de equilíbrio, ela se tornara um ponto de desequilíbrio, alvo dos adversários finalmente saciados.
O PT deu um exemplo ontem, cortando na carne. Já o PTB deve reafirmar a permanência de Roberto Jefferson na presidência do partido. Mas ele enfrentará gente sensata, como o ministro Mares Guia e o deputado Fleury. Um futuro cassado não pode continuar presidindo um partido.