Título: FH: 'Não queremos que pegue fogo em tudo'
Autor: Adauri Antunes Barbosa
Fonte: O Globo, 17/06/2005, O País, p. 14
Ex-presidente defende pressão por mudanças, mas com moderação: 'Somos contra, mas não podemos destruir'
SÃO PAULO. Antes do anúncio da demissão de José Dirceu da Casa Civil, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse ontem, em São Paulo, que não quer "que pegue fogo em tudo", referindo-se à crise política que atinge o governo Lula. Disse que é preciso haver pressão da sociedade por mudanças, mas que a pressão deve ser para a reconstrução do país, e não uma "pressão que quebra tudo".
Ele não citou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas defendeu uma apuração rigorosa das denúncias e a punição aos culpados:
- A sociedade é capaz de fazer pressão, não a pressão que quebra, porque quando quebra não vai adiante. Uma pressão que permita a reconstrução. Isso vem a propósito do que está acontecendo hoje neste país. Não pode quebrar nada, tem que reconstruir. Está errado, vamos corrigir. Somos contra? Somos contra, mas não podemos destruir. Tem que ser um contra que permita a superação, que permita melhorar. Não queremos que simplesmente pegue fogo em tudo, porque não ajuda. Não ajuda a ninguém.
A declaração foi feita durante palestra para empresários do setor de tecnologia e informação, durante o StorageTek Fórum, realizado em um hotel na capital paulista.
O ex-presidente assegurou que não se pode "criar um clima de instabilidade que prejudique a continuidade das regras democráticas" do país, lembrando que o Brasil já viveu muitos momentos de crise e de corrupção, mas disse que a maneira pela qual essas questões são enfrentadas está mudando.
- No passado havia intervenção militar, golpe ou renúncia. Chegamos a ter um impeachment dentro da lei. Hoje, as crises existentes não podem ser sentidas como se fossem o fim do mundo porque ninguém pode pensar em uma hipótese que não seja a lei. Faz a investigação e pune o culpado. É necessário porque é da democracia. O que não é necessário é criar uma instabilidade que prejudique a continuidade das regras democráticas - afirmou o ex-presidente no meio da tarde, antes do anúncio da saída do ministro José Dirceu do governo.
Apesar da crise, "instituições estão funcionando"
Na palestra aos empresários, Fernando Henrique falou sobre as perspectivas do Brasil para o futuro, avaliando que as instituições estão funcionando e que o processo democrático que ele ajudou a construir pode contribuir para consolidar o futuro do país.
- A sociedade tem que ser mais reivindicante, não choraminguenta - ironizou ele, defendendo em seguida mais investimentos na educação.
O ex-presidente também avaliou como avanço ocorridos no país a alternância de poder de seu governo para o do presidente Lula. Mesmo assim não perdeu a oportunidade de alfinetar o presidente.
- Não houve mudanças tão profundas como se imaginava - disse FH, criticando Lula ao afirmar que "o crescimento do PIB é fundamental, mas não basta" e que o Brasil do futuro não é apenas de um PIB grande, mas de uma distribuição de renda melhor.
No fim da tarde, Fernando Henrique foi o anfitrião e mediador de um debate, no Instituto Fernando Henrique Cardoso, no Centro, com o ex-inspetor de armas da ONU e diplomata sueco Hans Blix.
Na TV, tucanos sobem o tom dos ataques
Deputado: Lula sabia do mensalão
BRASÍLIA. Ao contrário da postura mais serena adotada nos últimos dias, os tucanos partiram ontem para o ataque frontal ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no programa partidário que foi ao ar na rádio e na TV. Em cenas entremeadas por depoimentos de eleitores que se diziam desencantados com o o governo Lula, o deputado Sebastião Madeira (MA) afirmava que Lula sabia do mensalão e que não tomou providências.
"O presidente Lula pode ser tudo, mas a gente sabe que ele não é ingênuo e nem desinformado. Lula nomeou milhares de petistas sem concurso, sabe do loteamento de cargos nas estatais. Sabe, e não é de hoje, do esquema de corrupção denunciado pelo deputado Roberto Jefferson, a quem aliás ele chama de parceiro". Líderes tucanos mais conhecidos adotaram um tom menos pesado. E o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso encerra pedindo "investigação de todas as denúncias de forma serena, isenta e honesta".
Legenda da foto: FERNANDO HENRIQUE: "Não se pode criar clima que prejudique a continuidade das regras democráticas"