Título: MOMENTO DE OUSAR
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Fonte: O Globo, 18/06/2005, Opinião, p. 6
A saída de José Dirceu do governo, além de afastar o foco da crise do Palácio do Planalto, concede ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um raro espaço de manobra. Deve ainda ser considerado que Lula tem a vantagem de não ser alvo das denúncias desfechadas pelo ex-aliado Roberto Jefferson. Por isso, e pela popularidade que ainda conserva, segundo as mais recentes pesquisas, o presidente mantém, aos olhos da população, um distanciamento providencial do tiroteio travado na base de partidos aliados.
Para a opinião pública, o governo e o próprio Lula já viveram tempos melhores. Mas, diante das circunstâncias, os números das pesquisas não são de todo maus. O tempo, porém, conspira contra Lula. Quanto mais rapidamente agir, melhor para ele e o governo.
A saída de José Dirceu deve deflagrar mudanças no Ministério, a serem aproveitadas pelo presidente para atrair de vez o PMDB com o objetivo de tornar sua base partidária menos movediça. Mas se o apoio parlamentar desse multifacetado partido for o único objetivo da reforma, riscos continuarão a rondar o terceiro andar do Palácio do Planalto.
Pelos anseios visíveis na opinião pública, este é o momento de mais do que uma reforma ministerial. Lula deveria mudar o estilo do governo, tachado, com razão, de administrativamente fraco, dependente apenas do êxito da política macroeconômica. Acusado de patrocinar um dispendioso inchaço da máquina burocrática, Lula precisaria reduzir o excessivo número de ministérios e secretarias e aproveitar para desaparelhar a administração, mandando para casa os milhares de militantes contrabandeados para a folha de pagamentos do Executivo e estatais, bem como os apadrinhados de partidos aliados. O presidente, dessa forma, além de dar um choque de eficiência na administração, agiria de maneira contundente contra a corrupção no seu governo. Como já faz via Polícia Federal e Controladoria da União.
Para reforçar as barreiras de proteção em torno da economia, teria de aumentar o superávit primário, até mesmo zerar o déficit nominal (que inclui o pagamento dos juros da dívida), para permitir ao Banco Central antecipar o afrouxamento da política monetária (juros). Diante de tudo o que aconteceu e ainda poderá acontecer, Luiz Inácio Lula da Silva precisa ousar.
Presidente deveria fazer mais que uma reforma ministerial