Título: Saída de Dirceu não elimina oposição à política econômica
Autor: Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 19/06/2005, O País, p. 14

BRASÍLIA. A volta do ministro demissionário da Casa Civil para a Câmara reduz o antagonismo sobre a condução da política econômica, estabelecido desde o primeiro momento do governo Lula, entre José Dirceu e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Mas não o elimina, pois o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que essa polaridade é saudável para a condução do governo e que vai cuidar para que a balança neste debate não fique desequilibrada.

Quando, no fim da semana passada, deu como certa a saída de Dirceu do governo, Lula comentou com auxiliares que Palocci terá que ser mais flexível na condução da política econômica. Com o fortalecimento evidente do ministro da Fazenda, o presidente quer estimular e ampliar o debate interno do governo para permitir o que chama de "pequenas inflexões", especialmente na execução orçamentária. Sem jamais ameaçar os fundamentos básicos da política econômica.

Fôlego para os inquietos

Entre os que devem ganhar fôlego no chamado grupo dos inquietos - que no governo Fernando Henrique Cardoso era identificado como desenvolvimentistas - estão os ministros Dilma Rousseff (Minas e Energia), que pode ir para a Casa Civil, Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento), Tarso Genro (Educação), Ricardo Berzoini (Trabalho), Roberto Rodrigues (Agricultura) e Ciro Gomes (Integração Nacional), além do líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP).

Entre os ortodoxos, além de Palocci, estão o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que pode sair na reforma ministerial. Lula tem dado demonstrações de que pretende ampliar o que chama de "tensão positiva" no núcleo do governo.

Tarso Genro, um dos principais pensadores do governo Lula, é enfático ao afirmar que não haverá mudança na política econômica e que o fiador máximo da linha adotada por Palocci é o próprio Lula. Ele reconhece que Dirceu era uma espécie de porta-voz dos ministros em debates internos. Mas a saída dele, diz, não é o fim da polaridade:

- Sempre houve uma elaboração conjunta desse pensamento. O Zé Dirceu sempre colocava a necessidade da redução moderada dos juros e do que considerava excesso do superávit primário. Essa era uma visão da maior parte dos ministros, que ele verbalizava. Esse debate vai prosseguir.

O ministro da Educação diz que Lula considera normal o contraditório no governo. Ele mesmo defende uma execução orçamentária mais eficaz.

- Hoje, temos uma execução orçamentária muito lenta. A liberação dos recursos é moderada para manter o superávit fiscal elevado. Isso é avaliado internamente. Não creio que essa tensão vai se amainar - diz o ministro, que enfrentou recentemente Palocci numa disputa por recursos para o Fundeb.

Mas Tarso reconhece que dificilmente, alguém terá a força de Dirceu no governo para enfrentar essa discussão:

- Dificilmente alguém vai ter a força e a personalidade do Zé Dirceu. Mas será possível avançar em inflexões moderadas. Agora, é impossível o Palocci ficar mais forte do que já está. Se acontecesse, ele estaria equiparando-se ao próprio Lula.

O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante, reforça a impressão de Genro. Ele ressalta que o governo Lula não vai subordinar a política econômica a objetivos eleitorais. Mas garante que a tensão continuará existindo.

- Essa tensão sempre existiu e continuará existindo. Foi assim nos governos anteriores entre monetaristas e desenvolvimentistas. Vamos manter o debate de fazer uma inflexão na política econômica que não comprometa a estabilidade - diz Mercadante, acrescentando:

- Nos primeiros meses deste ano houve sobrecarga na política monetarista em relação à meta de inflação irrealista, que comprometeu o ritmo forte de crescimento da economia, verificado no ano passado.

Para o deputado Jorge Bittar (PT-RJ), referência na bancada petista para temas econômicos, Lula levou para o governo uma dialética que estimulava quando estava no partido. Por isso, ele aposta que Lula deve manter esse debate interno e avalia que Dirceu de volta à Câmara pode fortalecer a voz da bancada dentro do governo.

- Fora do Planalto, o Zé Dirceu pode ficar mais à vontade para externar suas idéias. Além disso, dentro do governo existem outros interlocutores importantes que apontam para o caminho do desenvolvimento - disse Bittar.

'Palocci não será superministro'

Ele não crê que Palocci terá o seu poder ampliado:

- É inegável que Lula tem um grande apreço pelo Palocci. Mas ele não será um superministro. O presidente nunca estimulou o pensamento único. É da natureza do PT a existência do debate. Certamente, a saída de Dirceu não significa a prevalência das idéias ortodoxas.

A ministra Dilma Rousseff está no meio de uma dura negociação com o colega da Fazenda. Ela propôs, e não conseguiu, que na MP do Bem fossem desonerados investimentos em infra-estrutura, especialmente em geração, transmissão e distribuição de energia elétrica.

- Não foi agora, mas esperamos decisão favorável da Fazenda - disse Dilma no lançamento do pacote de incentivos.

A auxiliares mais próximos e fontes de outros ministérios, como Desenvolvimento e Itamaraty, a ministra tem alertado que, se não houver investimentos em infra-estrutura, não apenas no Brasil, como na Argentina e outros países sul-americanos, o país terá problemas. Tudo vai depender da taxa de crescimento que, se for alta, aumentará o consumo de energia.