Título: Para brasilianistas, momento é de desgaste e decepção
Autor: Toni Marques
Fonte: O Globo, 19/06/2005, O País, p. 15

A crise já é percebida, nos Estados Unidos, como demonstração de falta de habilidade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela reforça os antigos estereótipos americanos sobre a América Latina, num momento em que a política externa brasileira tenta ganhar peso e altura, e é, também, motivo de decepção por parte de expoentes da nova geração de brasilianistas, os acadêmicos que se dedicam, principalmente nos Estados Unidos, a estudar passado e presente do país.

Grande parte da academia americana torceu pela vitória de Lula em 2002, observa James Naylor Green, professor do Departamento de História da Universidade Brown e ex-presidente da Associação de Estudos Brasileiros, entidade que congrega pesquisadores americanos e brasileiros.

-Também noto muita decepção entre os intelectuais brasileiros - disse Green.

Hoje, diante não só da crise desencadeada nos Correios e pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), mas da política do governo federal como um todo, tudo pode se nivelar com maus momentos do passado, até no nível anedótico:

- Não me sinto a par de oferecer um comentário bem-informado. Mas, pelo que estou lendo, não vejo crise nenhuma. Esse festival está rolando desde os tempos da Tia Zulmira, e só não viu quem não quis - disse, por e-mail, o professor Bryan McCann, do Departamento de História da Universidade de Georgetown, citando o personagem Tia Zulmira, criado pelo humorista Stanislaw Ponte Preta.

Prestígio externo pode ser abalado

Escândalo reforça estereótipo sobre América Latina, diz professor

Para Todd Diacon, diretor do Departamento de História da Universidade do Tennessee, acusações de corrupção na política brasileira renovam a atitude descrente de certos setores da vida americana, postura que ele considera injusta. Mas, numa esfera mais ampla, as acusações afetam a imagem de Lula no exterior:

- Os americanos são especialistas em criticar o problema dos outros, enquanto ignoram problemas similares em casa. Mesmo assim, acusações de corrupção, de compra de votos no Brasil, tiram das pessoas nos Estados Unidos a resposta: "Sei, e o que mais é novidade?"

Diacon acha que o escândalo pode afetar o prestígio externo de Lula:

- Senti que o papel do Brasil como um ator importante no cenário mundial, como uma voz bem-pensada em prol da moderação e da justiça social na América Latina, estava crescendo. Um escândalo como esse pode descarrilhar esse prestígio crescente.

Para James Naylor Green, a percepção de falta de rumo é perceptível igualmente na política interna. Sendo ele mesmo um acadêmico petista, Green se diz decepcionado:

- O PT tinha discurso diferente da política dominante no Brasil desde o século XIX. Boa parte dos brasilianistas está decepcionada - disse ele.

Fisiologismo é marca negativa

Não que acadêmicos tenham esperado que as reformas brasileiras "avançassem a mil quilômetros por hora", salienta o professor Green. Porém a dificuldade de avançar, mesmo em baixa velocidade, é algo que não esperavam:

- Queremos que o Brasil avance. Lula foi eleito com 90%, 95% de apoio dos acadêmicos americanos. Mas não era para o governo do PT evitar a CPI dos Correios, por exemplo. Fica parecendo que eles vão fazer a mesma coisa que os outros governos fizeram em termos de fisiologismo.

Já Jeffrey Lesser, diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade Emory, tem uma visão ponderada. Crises são parte da democracia, diz ele, e esta fica, enquanto aquelas passam:

- O que acontece é que Lula foi eleito com uma expectativa muito alta. Então há uma cobrança maior. Mas a democracia brasileira é muito forte, como ficou claro com a pior das crises, que foi o processo de impeachment do presidente Fernando Collor.

Green, Deacon e Lesser estão no Rio para o I Simpósio Internacional de Estudos Brasileiros da Fundação Casa de Rui Barbosa. Sob o título "Brasil-EUA: novas gerações, novos diálogos", 14 brasilianistas apresentarão seus trabalhos, que serão comentados por acadêmicos brasileiros.

O seminário será aberto na terça-feira, às 18h, com uma conferência de James Naylor Green sobre a mudança de geração entre os brasilianistas. O encerramento será na sexta-feira, quando professores brasileiros debaterão a produção dos novos brasilianistas.