Título: Gil elogia a personalidade forteda nova ministra da Casa Civil
Autor:
Fonte: O Globo, 21/06/2005, O País, p. 4
Ministro da Cultura diz que Dilma 'tem um lado macho' na forma de gerenciar
SÃO PAULO e BRASÍLIA. O ministro da Cultura, Gilberto Gil, apoiou a escolha da ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, para a chefia da Casa Civil no lugar de José Dirceu.
- Ela tem uma personalidade forte, um lado macho na forma de imprimir gestão. Ao mesmo tempo ela é uma mulher. E isso é bom para civilizar e educar um pouco os agentes políticos brasileiros - disse.
Gil foi questionado pelos repórteres se é necessário ser "muito macho" para assumir a Casa Civil e ele tentou explicar de que maneira colocou o termo ao falar da ministra.
- O problema é que a expectativa geral da política brasileira, e mesmo da sociedade, é de que o governante precisa ser muito macho. Mas eu acho que é preciso ser meio macho e meio fêmea, porque precisa ter os dois lados.
Gil acredita numa interface positiva da Casa Civil com a Cultura e não economizou elogios ao falar da ministra.
- Dilma é uma gestora de primeira, com grandes qualidades políticas. Se ela for indicada (quando deu entrevista, a ministra ainda não havia sido confirmada), nós estaremos, pelo menos como governo, tenho a sensação que estaremos muito bem servidos.
Gil falou à imprensa durante visita a escola de samba Nenê da Vila Matilde, na Zona Leste da capital, antes do anúncio da decisão. Sobre a possibilidade de ele deixar o ministério para dar lugar ao PMDB, foi enfático.
- Eu não - respondeu.
Em Brasília, escolha provoca reações contrárias
Parlamentares do PT e da base elogiaram a nomeação. O clima mudou a partir do momento em que Lula voltou a considerar a possibilidade de manter o ministério da Coordenação Política. O líder do PT na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), disse que Dilma dará continuidade ao trabalho de José Dirceu:
- A Casa Civil já vem tendo função de coordenação. A política fica a cargo da Coordenação Política. Então, o perfil dela (Dilma) reforma a função de coordenação dos ministérios.
A oposição foi cautelosa e irônica ao comentar a indicação. O líder do PSDB, Alberto Goldman (SP), acusou Dilma de gostar muito do poder:
- Ela agiu de forma dura no desejo de tirar o poder da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Agora, ela conseguiu mais poder.
O vice-líder do PFL, José Carlos Aleluia, disse que a escolha ajuda o presidente Lula, mas não resolve a crise política:
- A escolha vai ajudar o presidente Lula, que viaja muito e governa pouco. Mas a crise vai continuar porque o problema atual não é de pessoas, mas de governo. A Dilma é uma pessoa de perfil autocrático num momento em que o governo está fraco - disse.
PMDB quer acelerar reforma ministerial
Partido pressiona abertamente o governo para aumentar seu espaço
BRASÍLIA. O PMDB começou a pressionar abertamente o governo a acelerar a reforma ministerial, deflagrada com a substituição de José Dirceu por Dilma Rousseff na Casa Civil, e para aumentar o espaço do partido no primeiro escalão. O senador Ney Suassuna (PB), líder da bancada, criticou a lentidão do governo em dar respostas à crise política e, em discurso no Senado, afirmou que o PMDB está pronto para ajudar.
- O que o PMDB oferece é o peso da sua estrutura e experiência para apoiar a governabilidade e quebrar o imobilismo que onera o crescimento (da economia) desesperadamente almejado - disse Suassuna. - Até agora, a única ação forte foi a saída de José Dirceu.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi aconselhado a acelerar as mudanças também pelo líder do governo, senador Aloizio Mercadante (PT-SP):
- A crise aumenta a oportunidade de o PMDB ter uma presença mais forte e uma relação institucional com o governo.
Os boatos no Congresso e na Esplanada dos Ministérios são de que o PMDB, unido, poderá ter até mais do que três pastas. A primeira seria a de MInas e Energia, que atenderia ao grupo de José Sarney. Um segundo ministério seria para o grupo do presidente do PMDB, Michel Temer (SP), podendo ele próprio ser o titular. E um terceiro a negociar. Mas isso tudo só se o PMDB for unido para a base.
Até agora, Temer só recebeu sondagens informais para uma conversa com Lula. Sarney está em Paris, em atividades ligadas à literatura, e só volta ao Brasil na próxima semana. Segundo Suassuna, o PMDB vai decidir unido qualquer participação no governo.