Título: Jefferson: mensalão começou na Alerj, com PL
Autor: Soraya Aggege
Fonte: O Globo, 21/06/2005, O País, p. 12
Ex-presidente do PTB acusa deputado Bispo Rodrigues de ter reproduzido em Brasília esquema que teria montado no Rio SÃO PAULO. O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), ex-presidente do PTB, disse ontem que o esquema do mensalão na Câmara foi implantado no PL pelo deputado Bispo Rodrigues (RJ), juntamente com o presidente do partido, Valdemar Costa Neto (SP). Segundo Jefferson, Rodrigues reproduziu em Brasília o esquema que teria montado na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Jefferson disse que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, passou a levar recursos para que Rodrigues e Valdemar distribuíssem as mesadas: - Valdemar, junto com Bispo Rodrigues desde o início, implantaram o mensalão no PL. Essa prática vem do Bispo Rodrigues, desde a Assembléia do Rio. Ele (Rodrigues) levou essa prática ao PL e acabou impregnando o Delúbio. E o Delúbio trazia os recursos para eles fazerem a divisão. Nisso eu vou bater, porque sei que acontece. Jefferson fez novos ataques ao presidente do PT, José Genoino, e disse que já tem provas que comprometeriam o secretário-geral do partido, Sílvio Pereira. Segundo o deputado, Genoino participou "de oito ou dez" reuniões, quatro delas na casa do próprio Jefferson, e negociou diretamente os repasses de dinheiro, que eram depois sacramentados na Casa Civil, pelo ex-ministro José Dirceu. Segundo o deputado, todas as reuniões que teve com Delúbio foram acompanhadas por Genoino. - As conversas (com Genoino) eram sempre sobre estratégia eleitoral e sobre quanto iam custar os apoios.
'Dirceu dava a palavra final' A hierarquia petista para os acertos, segundo Jefferson, era rígida. - José Dirceu sabia de tudo. Ele era uma espécie de presidente. O vice era Genoino. Tudo que era fechado no PT, tinha que ser homologado na Casa Civil. Dirceu é quem dava a palavra final em tudo. Eu conversava com Genoino, com Delúbio, mas tinha que bater o martelo com o Dirceu. Sempre foi assim. À noite, no programa "Roda Viva", Jefferson disse ter negociado com Sílvio Pereira, numa sala do Palácio do Planalto, nomeações políticas para diretorias do Departamento Nacional de Transportes (Dnit) e da Eletrobrás. Segundo ele, embora seja secretário-geral do PT e não tenha cargo no governo, Sílvio contava com a estrutura do palácio, com cafezinho e secretária, para negociar com aliados. Jefferson disse também que o PT aceitava a nomeação diretores de partidos aliados para estatais, mas Delúbio e Silvio Pereira comandavam todos os demais cargos e, com isso, dominavam a estrutura de arrecadação de dinheiro com empresários para financiar o partido. - O PT dá a cabeça para um partido aliado e o resto da estrutura é toda do Sílvio e do Delúbio - disse Jefferson. Segundo o petebista, essa estrutura do PT nas estatais dificultou o PTB a arrumar dinheiro com empresários: - Falei para o Carlos Cotta (ex-diretor financeiro do Dnit, hoje na Caixa Econômica Federal) procurar uns empresários e pedir um dinheiro para nos ajudar. Ele disse: 'Roberto, não dá. Quando eu chego, o pessoal do PT já passou' - disse o ex-presidente do PTB ao "Roda Viva".
Dinheiro não coube no cofre Segundo Jefferson, o esquema de distribuição de mesada para deputados do PP começou na Comissão de Minas e Energia, quando era presidida pelo deputado João Pizzolatti (SC).
- Era feito um café da manhã, os deputados subiam e saíam com um envelope. Antes do programa, Jefferson reafirmou ontem que ficou com os R$4 milhões que teriam sido repassados ao PTB pelo PT. Ele se negou a contar o destino dado ao dinheiro: - Isso aí é segredo. Vai ficar comigo. Vou esperar (o recibo de Genoino) - disse. Segundo ele, a quantidade de cédulas era tão grande que não coube no cofre do partido: - O dinheiro veio em malas que Marcos Valério (publicitário) levou em duas ocasiões ao PTB. Eu e Emerson Palmieri (tesoureiro informal do PTB) guardamos o dinheiro. Pedi ao Emerson que guardasse no cofre, no armário de aço, mas era muito dinheiro, não cabia no cofre. Perguntado sobre a inconsistência de provas, reagiu: - Vou aguardar Genoino se manifestar. Ele não pode fugir disso. Deixa Genoino me dar o recibo (da doação ao PTB). Genoino disse, pela assessoria, que ele e o PT não responderão às acusações de Jefferson. O deputado disse que já está pronto para uma possível acareação com Dirceu: - Sem problema, acho que nós dois vamos ter mesmo de passar por isso.