Título: Palavras de fogo e gestos incompletos
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 22/06/2005, O Globo, p. 2

Empossada a ministra Dilma Roussef no Gabinete Civil, os efeitos da saída do ministro Dirceu serão limitados se o presidente Lula não resolver logo a questão da coordenação política, que lhe traz problemas desde o ano passado. O ministro Jaques Wagner estava ontem escolhido, mas faltava o mais difícil para Lula: dispensar o ministro Aldo Rebelo. Lula não contribuirá também para o arrefecimento da crise se der ouvidos aos que o induziram a fazer ontem o discurso que jogou mais lenha na fogueira.

Na posse da ministra, o presidente não discursou. Não queria nem descer para a cerimônia de transmissão de cargo. Foi convencido por Jaques Wagner e pela própria Dilma da importância de sua presença no último ato de Dirceu como ministro. Emburrado, ele já dissera um "não faço questão". Os outros fizeram, Lula desceu e Dirceu foi ovacionado ao iniciar seu discurso, ontem mais contido.

Ao decidir que não falaria, segundo alguns Lula já se dera conta de que se excedera pela manhã em Luziânia. Chegou disposto a não abordar a crise, mas ouviu apelos dos líderes sindicais e de movimentos sociais ali presentes. Os mesmos que estão programando manifestações populares para denunciar o clima de golpismo e desestabilização, um movimento que pode funcionar como vento sobre a fogueira já tão alta da crise. O discurso foi bom até quando Lula tratou de capitalizar as ações de seu governo no combate à corrupção e a reivindicar sua própria trajetória. Resvalou para o terreno da vendeta quando acusou a oposição de estar preocupada com sua reeleição e quando tentou apresentar como assunto só do Congresso o caso do suposto mensalão. Se ele existiu, punir os corrompidos é problema do Legislativo mesmo, mas quem pagou pensava nos interesses do governo. Desnecessário defender-se, jactando-se de sua autoridade moral e ética, quando todos procuram preservá-lo, até mesmo o algoz do governo, Roberto Jefferson, embora por razões tortuosas. O resultado foi uma reação irada da oposição. "Dizer que a crise é do Congresso é um escapismo tolo", diria Goldman, seguido pelo vice-líder tucano Eduardo Paes: "Deu-nos um gosto de sangue na boca". O PFL não ficaria atrás: "Empáfia e dissimulação", diria o líder Rodrigo Maia. E a CPI acabou por aprovar dezenas de requerimentos, inclusive de dirigentes petistas.

Uma parte do PT gostou, vendo na fala uma atitude ofensiva. Outros não, acham que Lula acabou chamando a si um problema do qual vem sendo desvinculado, como as pesquisas mostram.

Em relação às mudanças no governo, a composição com o PMDB não sairá da noite para o dia. Mas a mudança no modelo de coordenação política é uma necessidade, corretamente diagnosticada pelo presidente. Mas precisa ser implementada logo. Já perto das 21h ele chamou a seu gabinete o ministro Aldo, que parece lutar para ficar, embora já tenha recebido "dicas" do presidente, como a de que gostaria de vê-lo novamente na Câmara, defendendo o governo com uma energia que hoje não vê em outros líderes.

Sua permanência, mesmo sem Dirceu no Palácio, manterá acesa a velha disputa com o PT e não produzirá a ruptura no modelo de relacionamento com o Congresso pensado por Lula. A articulação seria realizada lá mesmo, pelos líderes (Dirceu à frente, informalmente), tendo no Palácio apenas um auxiliar como interlocutor. Por isso Lula se fixou em Jaques, que já está lá, é do PT, não tem mandato mas tem boa relação com os congressistas e integra a coordenação de governo. O problema é que ele será candidato a governador da Bahia. Se assumir, terá que desistir ou sair em abril do ano que vem.