Título: JUSTIÇA PARA VÍTIMAS DA KU KLUX KLAN
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Fonte: O Globo, 22/06/2005, O Mundo, p. 30
Mais de 40 anos depois, americano é condenado por crime que inspirou filme 'Mississippi em Chamas'
Uma história que marcou a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e que permaneceu aberta por quatro décadas está chegando a seu final. No 41º aniversário da morte de três jovens ativistas no estado do Mississippi, um tribunal da cidade de Filadélfia condenou ontem Edgar Ray Killen, um ex-membro da Ku Klux Klan, por três acusações de homicídio culposo. O veredicto, no entanto, foi mais brando do que a promotoria desejava: o júri rejeitou as acusações de homicídio doloso contra Killen, mas o considerou culpado por recrutar uma multidão para matar os jovens.
Os assassinatos de Michael Schwerner, de 24 anos, Andy Goodman, 20 (dois ativistas judeus de Nova York), e James Chaney, 21 (sulista negro), em 21 de junho de 1964 mexeram com os americanos e com os movimentos de direitos civis. O crime no condado de Neshoba inspirou o filme "Mississippi em chamas", de 1988, com Gene Hackman e Willem Dafoe.
Sentado numa cadeira de rodas que usa desde um acidente em março e respirando com a ajuda de um tubo de oxigênio, Killen ouviu o veredicto sem demonstrar emoção alguma. Aos 80 anos, o pastor batista e ex-serralheiro foi imediatamente preso e pode ser condenado a 20 anos de prisão, segundo a sentença que será anunciada amanhã. Mas seu advogado anunciou que vai recorrer.
Os promotores primeiro acusaram Killen de assassinato premeditado, mas embora houvesse provas de seu envolvimento no complô para matar os ativistas, não conseguiram comprovar a presença dele no momento das mortes. Por isso, acabaram acusando-o de homicídio culposo, uma acusação que o júri, formado por nove brancos e três negros, aceitou melhor.
Parentes das vítimas disseram que o julgamento foi importante, mas a condenação mais leve do que esperavam.
- O fato de alguns desses jurados terem vivido aqueles anos e não reconhecerem que (os casos) foram assassinatos indica que ainda há pessoas que preferem olhar para o outro lado, que escolhem não ver a verdade - disse Rita Bender, viúva de Schwerner.
Para Ben Chaney, que perdeu o irmão, o julgamento atraiu a atenção para problemas raciais que ainda existem na região:
- A luz vai brilhar neste estado, nesta comunidade. Mas ainda vivemos na escuridão. Há muito trabalho a ser feito.
As três vítimas ajudavam a registrar eleitores negros durante o "Verão da liberdade", em 1964, e investigavam o incêndio de uma igreja pela KKK na Filadélfia. Os jovens chegaram a ser presos por excesso de velocidade - por um subxerife mais tarde condenado a quatro anos por envolvimento nas mortes. Após serem libertados, seu carro foi perseguido pelos membros da KKK. Eles foram mortos a tiros e seus corpos foram encontrados 44 dias depois numa represa.
Dos 18 homens julgados um ano depois, sete foram condenados de três a dez anos de prisão, mas nenhum cumpriu mais de seis anos. Killen fora absolvido porque o júri chegara a um impasse: 11 membros queriam sua condenação, mas uma jurada se recusou a condenar um pastor.
Na última década, uma nova geração de promotores, estimulados por novos depoimentos, pelas famílias das vítimas ou por memórias da juventude, reabriram alguns famosos casos da era da luta por direitos civis. Como resultado, em 1994 Byron de la Beckwith foi condenado pela morte em 1963 do líder de direitos civis Medgar Evers. Mais recentemente, o corpo de Emmett Till, um adolescente negro de 14 anos seqüestrado e morto em Mississipi em 1955, foi exumado a pedido de promotores que reabriram o caso.
No caso dos ativistas, o processo foi reaberto após surgirem novas provas, com a entrevista de um membro da KKK publicada no jornal "Clarion-Ledger". Novos depoimentos levaram à acusação de Killen, em janeiro. A defesa admitiu a ligação do réu com a KKK, mas afirmou que ele não teve participação nos crimes, nem estava presente quando eles ocorreram.
Ao encerrar seus argumentos, o promotor Mark Duncan pediu aos jurados que "removessem a mancha" do condado de Neshoba.
- Não seremos mais retratados ou descritos ou conhecidos por um filme de Hollywood.
Um condado avesso a forasteiros
Relações podem ter ajudado a atrasar processo judicial
FILADÉLFIA, Mississippi. Os nova-iorquinos Michael Schwerner e Andrew Goodman eram forasteiros que defendiam a integração social e votos para negros. Mas não só eles eram vistos como forasteiros nessa cidade do Mississippi: outros como judeus e comunistas também eram. Quarenta e um anos depois, a tensão entre os moradores da região e os chamados forasteiros ainda encontra ecos, enquanto eram julgados os assassinatos de Schwerner, Goodman e de um terceiro ativista de direitos civis, James Earl Chaney, de uma cidade próxima.
Antes de o julgamento começar, o promotor Mark Duncan pediu às pessoas que se apresentavam para a seleção do júri:
- Digam-me que vão tratá-los (as vítimas) como se fossem nossos vizinhos.
Esse é um lugar onde restaurantes são decorados com fotos de netos dos donos, onde clientes de uma loja conhecem o problema de saúde do proprietário, onde um caso envolvendo a Ku Klux Klan - organização racista que na década de 1920 chegou a ter dois milhões de membros - pode dividir famílias.
Até o juiz Marcus Gordon e o condenado Edgar Ray Killen, são ligados: o pastor Killen oficiou os funerais dos pais do juiz. Mas ninguém acusou Gordon de beneficiar a defesa. Para as pessoas essas conexões são inevitáveis num condado pequeno como Neshoba.
Embora Stanley Dearman, ex-dono do semanário local "The Neshoba Democrat", não acredite que relações de bastidores tenham afetado o resultado do julgamento, acha que elas podem ter contribuído para o atraso de 40 anos na condenação.
- Há o que eu chamo de política enraizada e isso tem muito a ver com o que acontece e não acontece - disse Dearman, lembrando-se de um chefe de polícia que se recusava a executar ordens de prisão por medo de perder votos para o cargo.
Dearman também está indiretamente ligado ao caso. Killen disse que na noite das mortes estava num velório - o de uma menina de 4 anos, filha de Carolyn Barrett, atual mulher de Dearman. Carolyn ainda tem o livro de condolências com a assinatura de Killen e sua irmã testemunhou a favor do réu.
Jornais locais dos anos 60 mostravam os defensores de direitos humanos como aventureiros, intrusos de cabelos compridos, sujos, em busca de problemas. Deborah Posey se lembra quando finalmente viu as fotos de Chaney, Goodman e Schwerner e ficou chocada como pareciam "pessoas normais".
Alguns traçam a aversão a forasteiros até a Guerra de Secessão, vencida pelo Norte. Dearman tem visão parecida.
- O fantasma do morador do Norte projeta uma longa sombra.
BOXE EXPLICATIVO
> Mortes no Verão da liberdade nos anos 60
Michael Schwerner e Andrew Goodman saíram de Nova York para participar do "Verão da liberdade" em Mississippi, um projeto que visava a expandir o registro de eleitores negros no Sul dos Estados Unidos e que convidava jovens universitários a ajudarem no programa, na virada de 1963 para 1964. O estado de Mississippi era um dos locais estratégicos para a campanha. Em 1962, apenas 6,7% dos negros no estado estavam registrados como eleitores - um dos menores índices do país.
Em Mississippi, o programa estabeleceu ainda cerca de 30 escolas da liberdade, para desenvolver a organização comunitária. O ensino estava a cargo de voluntários e o currículo incluía história afro-americana e filosofia dos movimentos de defesa dos direitos civis. No verão de 1964, cerca de três mil pessoas freqüentaram essas escolas, que foram alvo freqüente de grupos racistas. Naquele ano, cerca de 30 casas e 37 igrejas foram queimadas e 80 voluntários foram espancados, numa onda de violência que culminou nas mortes de Goodman, Schwerner e James Chaney.
No ano seguinte, o Congresso americano aprovou uma lei dando ao governo federal o poder de registrar como eleitor aqueles que os estados se recusassem a reconhecer como tal, apesar da oposição de governos do Sul do país.
"Não seremos mais retratados ou descritos ou conhecidos por um filme de Hollywood"
MARK DUNCAN,
promotor do caso
"A luz vai brilhar neste estado, nesta comunidade. Mas ainda vivemos na escuridão. Há muito trabalho a ser feito"
BEN CHANEY,
irmão de uma das vítimas
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