Título: Baixaria na planície
Autor: Maria Lima
Fonte: O Globo, 23/06/2005, O País, p. 3

Provocações de claque petista e Bolsonaro levam deputados a trocarem tapas na volta de Dirceu

Oprimeiro dia do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT-SP) de novo como deputado foi marcado por grande tumulto no plenário da Câmara, com agressões verbais, bate-boca, gritos, provocações, sopapos e empurrões entre parlamentares governistas e da oposição. Com as galerias lotadas por uma claque agressiva, organizada pelo PT, o plenário pegou fogo durante o discurso de Dirceu. Sua intenção era inaugurar uma imagem de parlamentar light, prometendo não fazer debate político e evitando o confronto com o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que o acusa de ser o chefe do suposto esquema de corrupção nas estatais.

Ao fim do tumultuado discurso, Dirceu teve de ser retirado do plenário para não ser atingido pelos empurrões e pelas agressões trocadas entre aliados e oposição. O clima já era bastante tenso quando Jair Bolsonaro (PP-RJ) fez uma provocação.

- Eu defendo a liberdade de imprensa porque fui vítima da censura e da ditadura... - discursava Dirceu, quando foi interrompido pelos gritos de Bolsonaro:

- Terrorista, seqüestrador!

Os gritos foram abafados por vaias e palavras de ordem da claque de militantes petistas nas galerias, que gritava de volta:

- Fascista! Fascista...

Dirceu ainda tentou dialogar com Bolsonaro, em vão:

- Sabemos que na democracia é direito da minoria o dissenso e quando não há consenso vamos a voto...

A palavra "voto" foi combustível extra:

- Voto? Vocês compram todos! - devolveu Bolsonaro, fazendo com as mãos o sinal de roubo.

'O Brasil precisa de debate. Sou light'

Na segunda metade de seu discurso, Dirceu foi interrompido por pedidos de aparte de deputados da oposição, mas como ele inicialmente não lhes atendeu, dizendo que preferia isso ao fim de seu discurso, começou uma gritaria no plenário. O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), tentava pôr ordem no plenário, sem sucesso. Ameaçava esvaziar as galerias, pedia respeito ao orador, mas o tumulto já era generalizado. Enquanto o deputado Alberto Fraga (PMDB-DF) abanava notas de real na direção das galerias, como o PT fazia quando era oposição, os deputados João Fontes (PDT-SE) e Carlito Merss (PT-SC) se atracavam.

Não parou aí. Bolsonaro reapareceu balançando um saco de lixo preto com uma faixa com a palavra mensalão, uma estrela vermelha e embaixo "Lullão", com o "l" dobrado em verde e amarelo. Os deputados petistas acharam que a provocação havia passado dos limites e também perderam a compostura. Com pouco mais de um metro e meio de altura, o pernambucano Fernando Ferro (PT-PE) partiu para cima de Bolsonaro e dava pulos ao seu redor tentando acertá-lo com socos. Em socorro de Ferro, no meio da confusão, apareceu a deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC), que conseguiu arrancar o saco plásticos das mãos de Bolsonaro.

Nesta altura a galeria já estava sendo esvaziada, Dirceu encerrara seu pronunciamento com apenas dois apartes e a sessão da Câmara foi suspensa por dez minutos.

- Vamos embora, Zé, vamos embora daqui! - dizia Sigmaringa Seixas (PT-DF), levando-o para fora do plenário.

Dirceu ainda voltou ao plenário e comentou que não estava preocupado com as reações iradas, que fazem parte da democracia. Em resposta a Bolsonaro, disse que há uma Lei de Anistia no Brasil.

- O Brasil precisa de debate democrático. Eu sou light - brincou.

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Claque foi mobilizada pelo PT

Dirceu deu voltas no Lago Sul para esperar chegada de aliados

BRASÍLIA. Coube ao deputado distrital Chico Vigilante (PT-DF) arregimentar militantes locais para fazer barulho na chegada do ex-ministro José Dirceu (PT-SP) à Câmara. Membros do Sindicato dos Bancários e do Sindicato dos Vigilantes da capital começaram a chegar ao Congresso por volta das 13h. Mais tarde lotaram as galerias, com o reforço de centenas de servidores ligados aos parlamentares petistas.

Quando se instalou o tumulto, uma verdadeira guerra entre galeria e plenário, o delegado Júlio César Silva, da Polícia Civil do Distrito Federal, foi preso pela Polícia Legislativa, por resistir à ordem dos seguranças para evacuar o local. Ele negou que fizesse parte da claque petista e disse que estava no local por acaso.

Dirceu chegaria à Câmara às 14h. Mas, no horário combinado, só Chico Vigilante e os militantes estavam no local. Nenhum parlamentar da bancada federal havia chegado. Como já havia saído de casa, o ex-ministro teve de ficar dando voltas no Lago Sul para esperar que o quórum melhorasse. Com atraso, cerca de dez deputados petistas liderados por Arlindo Chinaglia (PT-SP) e professor Luizinho (PT-SP) finalmente chegaram. Ali, os militantes com faixas e bandeiras vermelhas já davam o grito de guerra: "Dirceu é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo. Jefferson, pode esperar, a sua hora vai chegar!".

Oposição criticao uso de 'pelegos'

Quase carregado, ele foi primeiro até a liderança do PT. No corredor, ao avistar o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) que só fez um aceno e continuou ao largo da turba, Dirceu gritou:

- Zé Eduardo, aonde você vai?

- Vou ali na CPI... - respondeu o petista, seguindo em frente.

As faixas exibidas pelos militantes diziam: "Dirceu: os trabalhadores acreditam em você" e "Companheiro José Dirceu: Confiamos no seu compromisso de defender o Brasil, a ética, o PT e o governo Lula".

- Não que essa manifestação fosse necessária, mas sempre há quem interprete a saída do governo como perda de prestígio - justificou Chinaglia.

- Essa recepção é boa para o coração e para a alma. Mostra que o PT tem militância, que é um patrimônio ético e político - agradeceu Dirceu.

No plenário, depois da confusão nas galerias, os partidos de oposição criticaram a claque.

- Não adianta ele trazer uma claque para encher as galerias, porque quem está de olho em tudo é o povo brasileiro. Só mesmo os pelegos da CUT, ou os remunerados do MST para vir aqui aplaudir o governo Lula - criticou o líder da Minoria, José Carlos Aleluia (PFL-BA). (Maria Lima)

Dirceu diz que é de esquerda e quer governar SP

BRASÍLIA. O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu retornou à Câmara com um discurso moderado, deixando de lado as acusações de golpismo que fez nos últimos dias à oposição e sem sequer citar seu principal acusador, o petebista Roberto Jefferson. Sua maior preocupação foi defender o governo Lula com um balanço detalhado das conquistas nos seus 30 meses na Casa Civil. Em vários momentos falou, sem citar diretamente as acusações de corrupção, do interesse do governo em apurar as denúncias, repetindo que não é réu e que enquanto esteve no governo nunca foi processado.

- Eu volto com os olhos no Parlamento e o sentimento de que temos de dar uma resposta ao Brasil. Volto para ir ao Conselho de Ética, à Corregedoria, para prestar todos os esclarecimentos. Não tenho nada a esconder. Minha vida sempre foi transparente e pública, mesmo quando estive na clandestinidade - disse Dirceu.

A deputada Luciana Genro (P-SOL-RS) protestou por Dirceu só ter concedido dois apartes, a deputados chamados por ela de "direita da oposição". Dirceu respondeu que é da esquerda.

- Eu sou do PT e sou de esquerda, portanto, a esquerda falou, sim - disse.

Ele afirmou que não se envergonhava das alianças que ajudou a construir.

- Fui chefe da Casa Civil e não me envergonho nem faço autocrítica da política de alianças. Para governar o Brasil, era necessário fazer essas alianças.

Em resposta a aparte do deputado Alberto Goldman (PSDB-SP), que sugeriu que Dirceu queria ser presidente, ele disse que seu sonho é governar o estado de São Paulo:

- Todo deputado tem o direito de expor aqui o que pensa do governo, o que não tem nada a ver com desejo de ser presidente. Eu quis ser governador de São Paulo e não consegui. Se quer saber o meu desejo, gostaria de governar São Paulo.

Legenda da foto: A DEPUTADA PERPÉTUA tenta tirar de Bolsonaro o saco preto com protesto contra o mensalão: empurra-empurra no plenário