Título: SERVIDORES CONTRA, MOVIMENTOS SOCIAIS A FAVOR
Autor: Monica Tavares e Crisitiane Jungblut
Fonte: O Globo, 23/06/2005, O País, p. 11
Funcionários protestaram contra a corrupção e ativistas levaram carta de apoio ao governo
BRASÍLIA. Cerca de dois mil servidores públicos federais de todo o país, segundo estimativas da Polícia Militar, realizaram ontem manifestações na Esplanada dos Ministérios. Eles tentaram lavar a rampa do Palácio do Planalto, num protesto contra o que chamaram de "sujeira da corrupção", mas tiveram que ficar do outro lado da Praça dos Três Poderes.
"Lula, Lula, Lula, você vai me pagar. Na próxima eleição, em você não vou votar", gritavam os manifestantes, que não puderam se aproximar do Planalto, que foi logo cercado pelos seguranças e pela Polícia. Como não conseguiram lavar a rampa do Planalto, literalmente, encenaram a lavagem do outro lado da rua, junto com a senadora Heloisa Helena (P-SOL-AL) o deputado Babá (P-SOL-PA).
Os servidores reivindicam uma política salarial para a categoria, com antecipação emergencial de 18% referente as perdas. Eles querem a paridade salarial entre funcionários ativos e aposentados. Está marcada para hoje à tarde uma reunião entre a direção do Movimento e técnicos da Casa Civil e dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento.
À tarde, Lula recebeu no Salão Oval líderes de movimentos sociais como CUT, MST e UNE para receber apoio no momento de crise política. O encontro entre Lula e a Coordenação de Movimentos Sociais (CMS) foi negociado anteontem à noite pelos ministros Luiz Gushiken (Secretaria de Comunicação de Governo) e Jaques Wagner (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). Marcada para 16h, a conversa só começou à noite.
Os dirigentes entregaram ao presidente uma "Carta ao Povo Brasileiro", propondo que a sociedade se mobilize contra o que chamam de "desestabilização política do governo Lula.". Para eles, trata-se de uma articulação patrocinada por setores conservadores. A carta afirma que, "de olho nas eleições de 2006, as elites iniciaram uma campanha para desmoralizar o governo e o presidente Lula, visando enfraquecê-lo para derrubá-lo ou obrigá-lo a aprofundar a atual política econômica e as reformas neoliberais, atendendo aos interesses do capital internacional".
De bom-humor, LUla batucou um atabaque (tambor) que ganhou da sambista Leci Brandão. O tambor estava envolto em faixas vermelha e branca.
- Quarta-feira é dia de Xangô, o orixá da Justiça. E as cores desse orixá são vermelho e branco - explicou Leci Brandão, antes do encontro.
O presidente, que estava de terno preto e gravata vermelha, pegou o atabaque e começou a tocar.
- Ele está sendo injustiçado. Acredito no caráter dele, não é só uma questão de biografia. Acredito nele. O que me preocupa é que a gente brigou para ter uma transformação no Brasil e que essa história seja massacrada por coisas que não são culpa de quem a gente colocou no poder - disse a sambista.
Um dos líderes do MST, João Paulo Rodrigues, disse que o encontro seria de apoio, mas também de cobranças.
- Queremos mudanças importantes, principalmente na política econômica - disse Rodrigues.
A Carta, elaborada por 42 entidades, pede a investigação das denúncias de corrupção e mudanças ao governo. E conclama "forças democráticas e populares" a se mobilizarem para realizar manifestações de rua e protestos em defesa do governo.
Legenda da foto: LULA ABRAÇA Stédile em encontro no Planalto com líderes dos movimentos sociais