Título: DESAFIO RENOVADO NO HAITI
Autor: Vivian Oswald
Fonte: O Globo, 23/06/2005, O Mundo, p. 32
ONU prorroga missão chefiada pelo Brasil. General Heleno deverá ser substituído
Com o objetivo de facilitar o processo eleitoral no Haiti, o Conselho de Segurança da ONU aprovou ontem por unanimidade uma resolução que determina a prorrogação da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah) - comandada pelo Brasil - até fevereiro, bem como o envio de mais mil soldados e policiais civis. Para o Brasil, a decisão representa uma vitória diplomática parcial. O país defendia um prolongamento da Minustah até junho do ano que vem, e deve continuar à frente da missão, apesar da provável substituição do general Augusto Heleno Pereira no comando. Em Bruxelas, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, declarou:
- É muito importante manter o comando. Quando entramos, sempre colocamos isso como uma espécie de pacote. Mandamos o maior contingente e ficamos com o comando. Esta continua ser a nossa visão. Conversei com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e com outros interessados e ninguém questiona isso.
Com a prorrogação da missão de paz por nove meses, acredita-se que seja possível estabilizar o país para a posse de um novo presidente, prevista para 7 de fevereiro. A eleição será em novembro. Um mês antes, haverá eleições locais. A proposta do Brasil de estender a Minustah por um ano - para acompanhar os primeiros meses do novo governo - corria o risco de ser vetada pela China, que reprova a proximidade do atual governo haitiano com Taiwan, considerada por Pequim uma província rebelde.
- Não é o ideal porque não permite o planejamento maior das ações. Mas o perfeito é inimigo do bom. Esse prazo permite passar o período das eleições - avaliou Amorim.
A resolução aprovada ontem pelos 15 países-membros do Conselho de Segurança estabelece que o mandato da Minustah poderá ser renovado "por outros períodos".
Exército indicará outro general
Amorim elogiou o reforço nas forças de paz e afirmou que, por enquanto, o Brasil não está considerando enviar mais militares ao Haiti. Cerca de 750 soldados adicionais deverão formar uma unidade de resposta rápida para lidar com a violência em Porto Príncipe. Serão enviados ainda cerca de 300 policiais civis. Líderes haitianos têm reclamado que a Minustah não tem contido a violência de grupos armados. Ao mesmo tempo, aliados do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide acusam os soldados da ONU de não impedir ações da polícia contra eles.
O general Heleno admitiu ao GLOBO por telefone, que há aproximadamente um mês a violência no Haiti se intensificou, mas acrescentou que a situação começa a melhorar.
- Estamos saindo de uma crise de seqüestros, incidentes violentos e uma campanha contra a Minustah, orquestrada por não sei quem. Temos que usar novas táticas e restabelecer o controle da situação, o clima de segurança - disse ele.
O general disse não saber se continuará no comando da missão. Embora tenha expressado disposição para trabalhar, admitiu ter sugerido à ONU sua substituição por outro general brasileiro. Mas assinalou que a decisão é das Nações Unidas e do governo brasileiro. O comando do Exército informou que pretende indicar o general Terra Amaral para o lugar de Heleno.
No início do mês, o "Washington Post" fez duras críticas ao comando brasileiro no Haiti. Em editorial, disse que a missão havia fracassado. Em seguida, Heleno denunciou uma campanha da mídia americana contra a Minustah. Dias depois, disse que queria ser substituído.
Saiba mais sobre a Minustah
COMO SURGIU: A ONU enviou tropas de paz ao Haiti devido a uma crise política e social que culminara com a saída do presidente Jean-Bertrand Aristide, obrigado a fugir do país em fevereiro do ano passado, em meio a uma violenta rebelião e à pressão internacional.
FORÇAS: A Minustah tem 7.500 integrantes (1.200 brasileiros): 6.200 soldados e 1.300 policiais militares. A ONU decidiu ontem enviar mais 750 militares e 300 policiais civis.
PAÍSES QUE A INTEGRAM: Brasil, Argentina, Benin, Bolívia, Bósnia e Herzegovina, Camarões, Canadá, Chade, Chile, China, Croácia, Egito, El Salvador, Equador, Espanha, EUA, França, Filipinas, Gana, Guatemala, Guiné, Jordânia, Mali, Marrocos, Maurício, Nepal, Níger, Nigéria, Paraguai, Paquistão, Peru, Portugal, Romênia, Senegal, Serra Leoa, Sri Lanka, Togo, Turquia, Uruguai e Zâmbia.
"É muito importante manter o comando. Quando entramos, sempre colocamos isso como uma espécie de pacote. Mandamos o maior contingente e ficamos com o comando. Esta continua a ser nossa visão"
CELSO AMORIM
Ministro das Relações Exteriores
COLABOROU: Demétrio Weber, de Brasília
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