Título: Sem mudanças na política econômica
Autor: Flávia Oliveira/Martha Beck/Ênio Vieira
Fonte: O Globo, 24/06/2005, Economia, p. 23
Ministro diz que país está robusto para enfrentar crise e nega que haja oposição na Casa Civil
BRASÍLIA. Mesmo reconhecendo que a turbulência política é motivo de preocupação, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, voltou a defender a política econômica e afirmar que não haverá mudanças:
- Já enfrentamos crises com a guerra do Iraque e com mudanças na política de juros nos Estados Unidos. Progressivamente, o país se mostrou mais musculoso. Desenvolvemos anticorpos, músculos para enfrentar chuvas fortes, ventos uivantes e tormentas. É preciso criar saúde para enfrentar adversidades do meio ambiente. Esse é um trabalho de prevenção. Aliás, eu me formei em prevenção e não cirurgia.
Palocci acrescentou que problemas no campo político se resolvem no campo político e que o país tem instituições como o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal, o Ministério Público e o próprio Legislativo, capazes de investigar e solucionar a atual crise. Segundo ele, é preciso ter cuidado para que não se cometam injustiças, como a ocorrida com o diretor de florestas do Ibama, Antônio Carlos Hummel, preso por irregularidades na concessão de licenças ambientais sem que houvesse provas:
- Não podemos cometer pecados de violar biografias antecipadamente. Também é importante que o processo traga informação, transparência, investigação e punição.
O ministro não mostrou entusiasmo com a proposta de apertos fiscais maiores para atingir uma meta de déficit nominal zero em até seis anos, medida que vem sendo apontada como forma de se blindar a economia. Para ele, o Brasil precisa perseverar no caminho adotado:
- O nosso compromisso fiscal tem tido resultados positivos e estamos trabalhando para que a dívida pública assuma valores cada vez mais baixos. No futuro, é possível que a gente obtenha isso (déficit nominal zero), mas não tratamos o assunto como uma meta - disse ele, descartando ainda a necessidade de aumento na meta de superávit primário, fixada para este ano em 4,25% do PIB.
Palocci fez questão de negar qualquer oposição da Casa Civil da Presidência da República à política econômica. Ele elogiou a ministra Dilma Rousseff e seu antecessor José Dirceu, garantindo que sempre teve apoio nas medidas (juros, ajuste fiscal) para atingir a estabilidade econômica.
- Penso que José Dirceu fez uma grande trincheira de apoio à política econômica. Dois ou três comentários que o ministro tenha feito sobre a evolução dos indicadores não tiram a grande contribuição que ele deu nos últimos 30 meses - disse Palocci.
Em suas primeiras declarações, a nova ministra da Casa Civil disse que o esforço fiscal era constrangedor e afirmou ser desnecessário um aumento do superávit primário neste ano. Para o ministro, Dilma Rousseff será importante na execução de programas do Orçamento da União.
- Dilma terá o mesmo bom relacionamento com a Fazenda. Os ângulos de visão das políticas não significam conflitos, significam a necessidade de construção equilibrada das políticas.
Segundo ele, a ministra não criou um modelo intervencionista no setor elétrico e apenas construiu as bases para evitar situações como o racionamento de energia em 2001, no governo Fernando Henrique Cardoso. Palocci lembrou que a onda de liberalização no setor elétrico também provocou problemas nos Estados Unidos e na Europa.
- Sabemos o quanto custa não ter acompanhamento num setor como o de energia. É preciso dar segurança para os investidores, e o modelo lançado pela ministra Dilma caminha bem - disse Palocci. (Martha Beck, Enio Vieira e Geralda Doca)
Legenda da foto: PALOCCI: "DESENVOLVEMOS anticorpos, músculos para enfrentar chuvas fortes"