Título: Inflação em queda lenta
Autor: Flávia Oliveira/Martha Beck/Ênio Vieira
Fonte: O Globo, 24/06/2005, Economia, p. 23
Palocci confirma meta de 4,5% para IPCA em 2006 e anuncia a mesma taxa para 2007 O Conselho Monetário Nacional (CMN) fixou ontem em 4,5% a meta oficial do governo para a inflação em 2007, com um intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Assim o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referência para o sistema de metas, pode variar de 2,5% a 6,5%. Este será o resultado a ser perseguido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central ao fixar os juros básicos da economia nos próximos dois anos, uma vez que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, informou que o CMN manteve a meta de 2006 em 4,5%. - A longo prazo, poderemos buscar uma meta mais ambiciosa, em torno de 4%. Se houver mudanças institucionais na economia, será possível, ainda mais à frente, buscar inflação abaixo de 4% - disse Palocci. No anúncio da meta, estiveram presentes o secretário-executivo da Fazenda, Murilo Portugal, e o diretor de Política Econômica do BC, Afonso Bevilaqua. Cotado para sair na reforma ministerial, prevista para os próximos dias, o presidente do BC, Henrique Meirelles, participou apenas da reunião do CMN. Ao contrário dos últimos dois anos, ele não esteve na entrevista. Portugal é tido como um dos possíveis substitutos de Meirelles no BC. Palocci apontou quatro fatores para a escolha da meta de 4,5% para 2007. Segundo ele, o número é consistente com o crescimento da economia a longo prazo. A experiência de outros países, completou, sugere que uma inflação abaixo de 5% garante uma estabilidade de preços definitiva. O ministro também disse que uma meta mais alta em 2007 poderia alimentar instrumentos de reajustes de preços. Por último, ressaltou que a economia brasileira está sujeita às variações do câmbio, que provocam choques e instabilidade financeira: - O sistema de metas é ainda recente no Brasil. Estamos num processo de desinflação desde 2003 para atingir uma inflação de 4,5% em 2006. Dependendo da evolução da economia, podemos caminhar para metas mais ambiciosas no futuro. Analistas apóiam, Fiesp critica O ministro negou que a atual política econômica tenha chegado à exaustão, em razão dos juros altos e do crescimento menor do Produto Interno Bruto (PIB) em 2005. Ele repetiu o argumento de que aceitar uma inflação mais alta só gera mais inflação e não traz benefícios à renda da população. Segundo Palocci, a política de juros do BC foi correta ao identificar as pressões inflacionárias no ano passado e elevar a taxa básica (Selic) de 16% para 19,75% ao ano, de setembro de 2004 a maio de 2005. - A política monetária acertou, ao contrário do que dizem os críticos. O Banco Central viu primeiro que haveria pressão inflacionária. Mas só o tempo vai mostrar se a inflação está realmente debelada. Isso não nos autoriza a festividades, nem a antecipar decisões de queda dos juros - disse Palocci. O ministro garantiu que o BC está perseguindo a meta de 4,5% em 2006, ainda que analistas de mercado esperem um IPCA de 5%. Na ata do Copom, divulgada ontem, os diretores do BC afirmam que os juros de 19,75% ao ano projetam inflação acima da meta de 5,1% em 2005 e abaixo da estabelecida para o ano que vem. O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP) - que, desde o ano passado, defende a adoção de metas maiores, que permitam uma política monetária mais frouxa - disse que a economia poderia crescer mais se fosse adotada sua sugestão: metas de 5,1% em 2006 e 2007. - Haveria uma convergência da inflação mais lenta e maior espaço para a queda dos juros e a expansão da economia, que é a prioridade do governo - disse Mercadante. Os economistas receberam bem a confirmação da meta de 2006 e a decisão do governo de manter a de 2007 no mesmo nível. Declarações anteriores de Palocci indicavam há tempos que não havia intenção de mexer nos números de 2006, apesar de as projeções de inflação deste ano estarem, mais uma vez, encostadas no teto da meta. Ilan Goldfajn, ex-diretor de Política Econômica do BC e hoje na Gávea Investimentos com o ex-presidente do BC Armínio Fraga, disse que o governo optou por alongar o prazo de convergência da inflação brasileira para patamares próximos à média dos países desenvolvidos: - Repetir os 4,5% em 2007 foi um bom meio termo, porque um número menor exigiria muito da economia, e maior não faria sentido com a inflação em queda. A inflação está indo na direção correta, mas num prazo mais longo. Goldfajn chegou a defender o aumento da margem de oscilação da meta para 2,5 pontos percentuais. Para ele, isso daria mais flexibilidade à política monetária em momentos de choques externos, como a valorização do petróleo, das commodities ou a desvalorização do real. O diretor de Estudos Macroeconômicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Paulo Levy, foi outro que aplaudiu a decisão do CMN. Segundo ele, o governo acertou ao fixar metas críveis, capazes de orientar as expectativas de inflação dos agentes econômicos. - O CMN reconheceu que a convergência da inflação será gradual. No sistema de metas, o maior risco é que as expectativas apresentem sinal contrário ao determinado pela autoridade. Isso tiraria a credibilidade do regime, que é o melhor modelo de controle de inflação que poderíamos ter - disse Levy. O economista Marco Antonio Franklin, da Plenus Gestão de Recursos, acredita que os 4,5% em 2007 são uma "meta desafiadora". Ele lembrou que, desde a desvalorização do real, em 1999, o país nunca teve uma inflação neste nível (o menor resultado do IPCA no ano foi 5,97% em 2000). Portanto, afirmou, não há como acusar a equipe econômica de estar sendo leniente com a inflação em prol de uma taxa mais alta de crescimento do PIB nos próximos anos: - Esta meta é desafiadora, mas exeqüível. O único risco que vejo a seu cumprimento a médio prazo é uma nova alta nos preços das commodities, algo que ninguém pode garantir que não ocorrerá em dois anos. Ou alguém quatro anos atrás esperava que o petróleo fosse triplicar de preço, como ocorreu? A meta de 4,5% não é fácil. Economista da ARX Capital, Sérgio Goldenstein, ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto do BC, disse que a decisão do CMN não teve surpresas. Segundo ele, o governo enfrentava pressões internas e externas para fixar metas mais altas, mas optou por uma decisão conservadora: - Uma meta mais alta jogaria a inflação para cima. As metas de 4,5% para 2006 e 2007 terão um custo pequeno, com impacto marginal sobre a atividade, uma vez que a trajetória da inflação é declinante. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e o Centro das Indústrias de São Paulo (Ciesp) atacaram a decisão do CMN. Os dirigentes das entidades afirmaram que as metas de 4,5% implicam a manutenção de juros altos, que poderão ter como conseqüência maior redução do ritmo da economia e estagnação de novos investimentos. inclui quadro: saiba mais sobre o sistema / Traduzindo o Economês