Título: EUA APROVAM DROGA ESPECÍFICA PARA NEGROS
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Fonte: O Globo, 25/06/2005, O Mundo/ Ciencia e Vida, p. 36
Primeiro remédio para uma raça causa polêmica: especialistas dizem que não há diferença biológica entre etnias
NOVA YORK. A Administração de Drogas e Alimentos (FDA na sigla em inglês) dos Estados Unidos acaba de aprovar um remédio para falha cardíaca desenvolvido especificamente para o tratamento de negros ¿ duas vezes mais propensos que os brancos americanos a terem o problema. A primeira droga voltada especialmente para uma raça já causa polêmica. Muitos especialistas questionam sua eficácia, lembrando que não existem diferenças biológicas entre grupos étnicos e que o lançamento visaria apenas ao lucro.
A autoridade reguladora de drogas, entretanto, aprovou a comercialização do BiDil depois que uma série de testes apontou que o medicamento reduziu em 43% as mortes de pacientes cardíacos que se identificaram como negros. Na avaliação dos especialistas da FDA, a droga seria um primeiro passo rumo à promessa de uma medicina personalizada.
A nova droga não foi desenvolvida originalmente para negros. Mas os primeiros testes clínicos, realizados com um grupo multirracial de pacientes, revelaram que, enquanto os negros se beneficiavam com o novo medicamento, ele tinha quase nenhum impacto sobre os brancos. No ano passado, um novo teste clínico foi realizado, com 1.050 negros que apresentavam falha cardíaca.
Internações foram reduzidas em 39%
Os resultados foram considerados tão bons que o teste foi interrompido antes do tempo previsto para que as pessoas que recebiam placebo (substância inócua usada como controle) pudessem também tomar o remédio. Entre os pacientes que tomavam o BiDil, houve uma redução de 43% nas mortes e de 39% em hospitalizações.
¿ As informações apresentadas à FDA demonstraram claramente que os negros que sofrem de falha cardíaca têm agora uma nova, segura e eficaz opção de tratamento ¿ afirmou Robert Temple, diretor de Política Médica da FDA. ¿ No futuro, esperamos descobrir características que identifiquem as pessoas de qualquer raça que poderiam ser ajudadas pelo BiDil.
A aprovação da nova droga foi bem recebida pela Associação Médica Nacional, um grupo que se dedica a campanhas por maior igualdade de tratamento entre brancos e negros no sistema de saúde.
¿ Esperamos que o BiDil chegue ao mercado depressa. Um dia de atraso representa uma inaceitável perda de oportunidade de salvar vidas ¿ disse Winston Price, presidente do grupo.
Mas os críticos garantem que não há nenhuma razão biológica capaz de explicar por que a droga funcionaria de forma diversa para diferentes etnias.
¿ A aprovação do BiDil não tem nada a ver com medicina personalizada. Tem a ver com explorar uma raça para ganhar dinheiro com a ampliação da proteção da patente ¿ afirmou Jonathan Kahn, especialista em ética da Universidade Hamline, lembrando que a patente do BiDil para uso geral expira em 2007, mas, com a aprovação para negros pode ser ampliada até 2020.
O próprio conceito de raça é cada vez menos aceito por especialistas porque já está comprovado que as diferenças genéticas entre grupos étnicos são praticamente inexistentes. Além disso, ainda que a droga seja eficaz para negros americanos, dificilmente serviria por exemplo para negros brasileiros, que têm origens diferentes.