Título: TERRENO SEGURO
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Fonte: O Globo, 25/06/2005, Opinião, p. 6

Desde que a primeira parte da crise política eclodiu, com a divulgação da fita em que o funcionário dos Correios Maurício Marinho patrocina uma cena de corrupção explícita em nome de um aliado do governo, o deputado petebista Roberto Jefferson, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva variou de discurso e postura. Como costuma ocorrer com presidentes em situações de risco, Lula tratou o assunto com desdém ¿ mesmo quando a oposição, com o apoio de parte do PT, conseguiu aprovar uma CPI mista na Câmara.

Depois, na etapa seguinte, a temperatura da crise subiu e ultrapassou qualquer limite previsível, quando Jefferson, dizendo-se abandonado pelo governo, resolveu denunciar o mensalão e envolveu no caso a cúpula do PT e o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Ainda assim, Lula tentou demonstrar tranqüilidade. Mas já de maneira temerária, quase autista, por creditar tudo a uma desavença entre partidos e procurar segregar a crise ao Congresso. E foi assim, tateando, com altos e baixos e pelo menos um perigoso tropeço, num discurso de improviso no interior de Goiás, que o presidente afinou o tom e fez quinta-feira à noite o melhor pronunciamento na crise.

¿(...) O corrupto deve ser sempre punido, e sempre de forma exemplar. Seja ele quem for, venha de onde vier, seja adversário ou aliado.¿ Lula avançou em terreno seguro ao admitir a existência de problemas entre os seus e estender a mão para a oposição.

Pois é certo que essa crise, por expor graves deformações do sistema político, é um problema de todos, situação e oposição. A mão estendida abre espaço para uma aliança destinada não só a punir culpados, mas também a fazer as mudanças de legislação necessárias para proteger o sistema da banda pobre que mistura vida pública com negociatas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acerta, ainda, ao afastar-se do discurso chavista, esboçado por José Dirceu ao sair do governo e adotado de maneira oportunista por PT, CUT e adjacências. Lula demonstra saber que não há qualquer movimento para desestabilizá-lo, tampouco a democracia. E que acenar com a tese fantasiosa do golpe é tentar proteger corruptos e escamotear a corrupção.