Título: GOVERNABILIDADE
Autor:
Fonte: O Globo, 28/06/2005, Opinião, p. 6

Fragilizado pela crise política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpre a inevitável tarefa de tentar atrair o PMDB para o governo. Mas, provavelmente pressionado pelas circunstâncias, Lula açodou-se e começou pelo fim, deixando-se fotografar, na sexta-feira, com Michel Temer e Renan Calheiros, de mãos dadas, escoltado pelo senador Aloizio Mercadante, como se algum pacto já houvesse sido firmado.

Como se sabe, mesmo em política estudantil, fotos e comemorações estão liberadas somente quando os acertos são irreversíveis. No caso, se o PMDB resolver não se aproximar do governo, todo o desgaste ¿ mais um ¿ ficará para o presidente. Depois do encontro de sexta seguiram-se consultas internas no partido ¿ um processo sempre tortuoso em se tratando do PMDB, uma federação de caciques regionais, dividida entre uma ala governista e outra oposicionista, onde atua um candidato declarado à sucessão presidencial, Anthony Garotinho. Para ele, quanto pior a situação do governo, melhor.

Mesmo diante das óbvias dificuldades para fechar um acordo com peemedebistas, é vital para Lula atrair a mais ampla parcela possível do partido, a fim de distanciar-se ao máximo das legendas de aluguel da sua base parlamentar (PP, PL e PTB), situadas no epicentro da crise.

Cabe ainda a Lula manter em ação a operação da mão estendida ao PSDB e ao PFL, também para preservar a governabilidade e preparar-se para embates importantes no plenário do Congresso. Como o que será necessário para impedir que a reforma partidária atenue a cláusula de barreira contra partidos nanicos.