Título: O AMIGO QUE PÕE A MÃO NO BOLSO
Autor: Evandro Éboli/Adriana Vasconcelos/Maria Lima
Fonte: O Globo, 07/07/2005, O País, p. 3
Valério foi avalista do PT e sua empresa pagou parte do empréstimo
BRASÍLIA.O publicitário Marcos Valério admitiu na CPI que foi avalista do empréstimo de R$2,7 milhões do PT junto ao BMG por amizade ao tesoureiro afastado do partido, Delúbio Soares. Ele revelou que assinou como pessoa física, atendendo a um pedido de Delúbio, mas quem pagou a primeira parcela, de R$350 mil, foi a SMP&B, que possui vários contratos com órgãos do governo federal. Valério afirmou que, quando o PT não honrou com o pagamento, ele pediu para deixar de ser o avalista da transação. Ele não soube dizer quem entrou em seu lugar no negócio com o BMG.
¿ Sou avalista do PT no contrato com o BMG de R$2,7 milhões e paguei a primeira parcela, é verdade.
Ele revelou ainda que até hoje o PT ainda não pagou à SMP&B .
¿ Está na minha contabilidade. O PT não pagou ainda.
Para membros da CPI, esse foi um dos dados mais importantes do depoimento de ontem.
¿ O mais importante, e que consideramos muito sério, é que ele assinou como pessoa física o aval do empréstimo, mas quem pagou foi a empresa que recebe recursos públicos. Ele comprovou a íntima relação da SMP&B com o PT ¿ disse o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR).
¿ Ficou evidente que existe um duto que drena recursos públicos para jorrar nas contas do PT. O depoimento configura um comprometimento com figuras importantes do governo e do PT¿ atacou ACM Neto (PFL-BA).
Assinatura sem a presença do presidente do PT
Inquirido pelo deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ), ele disse que assinou, sem a presença do presidente José Genoino, confiando que o partido iria honrar os pagamentos. Depois de pagar a primeira parcela, quando começaram a cobrança dos juros e o contrato foi renegociado, ele pediu para que seu aval fosse retirado.
¿ É um fato muito estranho. Como ele conseguiu sair da situação de avalista? Não tenho informação de que há essa boa vontade dos bancos nesse tipo de transação ¿ disse Paes.
Marcos Valério se negou a revelar se avalizou empréstimos para outros políticos ou partidos. Disse que qualquer nome que citasse seria jogado em desgraça. Contou ter grande amizade com Delúbio, com quem conversa duas ou três vezes por semana. Mas negou que o empréstimo tenha sido uma operação comercial. Mesmo tendo sido paga pela SMP&B.
¿ Eu fiz um favor, não é um negócio comercial.
Valério garantiu que a amizade com o ex-tesoureiro não teve efeito sobre suas relações comerciais com o governo ou na sua evolução patrimonial, que teria ido de R$6,7 milhões em 2003 para R$14,2 milhões em 2004.
¿ Isso foi fruto de trabalho, não do Delúbio Soares ¿ garantiu.
Para justificar os encontros que manteve com o ex-secretário geral do PT Silvio Pereira, o publicitário disse que todos foram para tratar de política, já que ele era o responsável pelas campanhas eleitorais do partido. Nesses encontros é que teriam sido fechados os contratos da Estratégica para as campanhas de Osasco, São Bernardo do Campo e Petrópolis.