Título: Gushiken já pediu demissão
Autor: Evandro Éboli/Adriana Vasconcelos/Maria Lima
Fonte: O Globo, 07/07/2005, O País, p. 3

Situação de Dirceu, também derrubado pela crise, se complica com depoimento de Valério na CPI

O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação de Governo, o petista Luiz Gushiken, decidiu deixar o governo. Ele conversou ontem sobre o assunto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e comunicou que sairá. Em encontro na Granja do Torto, o presidente não fez menção de demovê-lo. Lula ficou irritado com a revelação de que a revista do cunhado do ministro recebe verbas publicitárias crescentes de empresas públicas e também com a de que a empresa de consultoria Globalprev, da qual Gushiken era dono, teve seu faturamento aumentado em 600% no governo atual.

Gushiken comentou com colegas de Ministério que pode deixar o cargo até amanhã. Alguns interlocutores ficaram com a impressão de que sairia ontem mesmo. Será o segundo ministro a cair na crise que também já derrubou José Dirceu, homem forte do primeiro ano do governo Lula, da Casa Civil.

Anteontem, o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) dissera que um dos próximos escândalos a estourar seria nos fundos de pensão, setor muito ligado a Gushiken. Ele indicou dirigentes de pelo menos dois grandes fundos de pensão de estatais, Petros (da Petrobras) e Previ (dos funcionários do Banco do Brasil). Ele é amigo de Lula há muitos anos e foi um dos seus mais influentes conselheiros nos dois primeiros anos de mandato.

Marcos Valério levou banqueiro a Dirceu

Já de volta à planície, também se complica a situação do deputado José Dirceu. Em seu depoimento ontem na CPI dos Correios, o publicitário Marcos Valério, acusado de ser o operador do suposto mensalão do PT, revelou ter participado do encontro de diretores do BMG com o então chefe da Casa Civil, José Dirceu, no início de 2003, no Palácio do Planalto. Em nota divulgada anteontem, Dirceu confirmara a reunião, um dia depois de O GLOBO noticiar que assessores do Planalto tinham admitido o encontro. Na nota Dirceu omitiu, porém, a presença na reunião de Valério, avalista do empréstimo de R$2,4 milhões do BMG para o PT.

Na CPI, Valério alegou que apenas acompanhou o grupo do BMG:

¿- Não levei o pessoal, apenas acompanhei na visita ao José Dirceu. Foram convidá-lo para a inauguração de uma fábrica de produto alimentício em Luziânia (GO) ¿ disse.

Para conceder o empréstimo ao PT, o BMG teria exigido um encontro com Dirceu. O empréstimo de mais de R$2 milhões foi feito em 17 de fevereiro de 2003. Valério não informou a data do encontro de diretores do BMG com o chefe da Casa Civil.

Na nota, Dirceu confirmou ter recebido o presidente da Brasfrigo, Flávio Guimarães, empresa do Grupo BMG. O deputado disse que atendeu a seu convite e foi à inauguração da nova fábrica do grupo, em Luziânia, em 9 de maio de 2003. Dirceu afirmou que encontros como o que teve com dirigentes do BMG são normais e negou ter participado de decisões internas do PT quando era ministro.

Ao interrogar Marcos Valério, o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) disse que foi após esse encontro da direção do BMG na Casa Civil que José Dirceu teria determinado ao Ministério da Previdência que autorizasse o banco a operar com empréstimos para aposentados e pensionistas. Mas o deputado não apresentou provas.

¿- Eu desconheço essa informação ¿ disse Marcos Valério.

Ele admitiu ter tido quatro encontros com Dirceu. Dois teriam sido audiência na Casa Civil. Além da direção do BMG, ele teria agendado reunião de diretores do Banco Rural com o então ministro. Os outros dois ¿foram sociais¿, disse Valério, sem revelar quando ou onde ocorreram os encontros.

OUTRAS MUDANÇAS NO MINISTÉRIO nas páginas 10 e 15