Título: IRAQUE: BRITÂNICOS ESTUDARIAM RETIRADA MACIÇA
Autor: Nigel Morris
Fonte: O Globo, 11/07/2005, O Mundo, p. 22

Planos secretos vêm à tona em meio a onda de atentados contra forças iraquianas, que mataram mais de 40

LONDRES. Uma proposta sigilosa para a retirada de mais da metade das tropas britânicas do Iraque em até nove meses foi enviada pelo ministro da Defesa do Reino Unido, John Reid, ao primeiro-ministro Tony Blair. A revelação desse documento, ontem, coincidiu com violentos ataques desferidos pelo braço iraquiano da al-Qaeda contra forças de segurança daquele país. Analistas ligaram os atentados no Iraque à divulgação do memorando, afirmando que retiradas de tropas estrangeiras do país ocupado implicariam o recrutamento de mais iraquianos para tomar seu lugar.

O memorando foi obtido pelo jornal ¿The Mail on Sunday¿ e reproduzido por grande parte da imprensa britânica. O Ministério da Defesa confirmou a autenticidade do documento, mas afirmou que se tratava de um estudo de caso sobre o futuro da presença britânica no Iraque.

De acordo com o plano, o contingente britânico seria reduzido de 8.500 para três mil soldados, com alguns deles retornando já em outubro e outros em abril do próximo ano.

Ministros britânicos sempre sustentaram que as tropas aliadas não deixariam o Iraque até que as forças de segurança locais fossem capazes de assumir o comando. Mas o memorando mostra que uma detalhada ¿estratégia de saída¿ já é estudada pelo Ministério da Defesa, incluindo prazos.

Tropas americanas cairiam de 176 mil para 66 mil

Soldados britânicos patrulham o sul do Iraque, de maioria xiita. No documento consta que há uma ¿clara aspiração militar britânica¿ de entregar a iraquianos o controle das províncias de al-Muthanna e Maysan em outubro e das duas províncias restantes em abril de 2006. Nas mesmas páginas, lê-se que Washington também discute planos de tirar do Iraque 110 mil dos seus 176 mil homens: ¿planos americanos estimam que 14 de 18 províncias possam ser passadas ao jugo iraquiano até o início de 2006¿, escreve Reid.

Em seguida, Reid observa que enquanto o Pentágono deseja ¿uma redução relativamente arrojada¿, comandantes americanos no Iraque querem um processo mais cauteloso. A Casa Branca não confirmou as informações do documento.

Ações terroristas no Iraque deixaram mais de 47 mortos

Uma onda de atentados matou ao menos 47 pessoas ontem no Iraque. Na maioria dos ataques, o alvo eram as forças de segurança iraquianas. No mais sangrento deles, um homem-bomba deixou 21 mortos e 41 feridos numa fila de recrutamento do Exército iraquiano, em Bagdá.

A autoria da ação foi reivindicada pelo braço iraquiano da rede al-Qaeda, liderado pelo terrorista jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, num comunicado na internet.

Testemunhas afirmaram que um homem-bomba se misturou à multidão de jovens iraquianos que aguardavam para se alistar, momentos antes de detonar explosivos que trazia amarrados ao corpo.

Em outros atentados suicidas nas cidades de Kirkuk e Mossul, no norte, seis pessoas morreram. Oito membros de uma mesma família foram mortos, quando dormiam, por pistoleiros em Bagdá.

* com agências internacionais