Título: `Lula quer ver o PT profundamente renovado¿
Autor: Soraya Aggege
Fonte: O Globo, 12/07/2005, O País, p. 12

Tarso reconhece que o partido cometeu irregularidades e diz estar pronto para pedir desculpas à nação

O novo presidente do PT, ministro Tarso Genro (Educação), admitiu ontem que o PT cometeu irregularidades e descartou a hipótese de uma armação contra o partido. Em entrevista ao GLOBO por telefone, Tarso disse que está pronto para ¿pedir desculpas¿ à nação e que os possíveis responsáveis serão punidos. Sua expectativa é que surjam mais denúncias contra o PT e o governo. Lula deve orientar Tarso sobre a nova condução do PT. ¿O presidente quer o PT profundamente renovado¿, disse. Ele promete medidas antagônicas às do seu antecessor, José Genoino: quer mudanças nas políticas de alianças e na economia e promete dar mais espaço às opiniões da esquerda e do centro do partido.

Quais os próximos passos para o PT?TARSO GENRO: Tenho uma enorme responsabilidade ao assumir o partido num momento como este. É um momento de crise em que a própria recuperação estratégica do partido é fundamental para a recuperação do governo, para o governo sair dessa crise política em que se encontra. Nós temos que iniciar um trabalho forte de averiguação interna do partido para que possamos, a partir daí, verificar erros que foram cometidos, se foram cometidos, para, localizando esses erros, pedir desculpas à sociedade e mostrar que estamos iniciando uma nova fase. E pedir desculpas também à nossa base militante.Além das medidas que o senhor anunciou no domingo, quais serão as próximas ações?TARSO: Teremos agora uma reunião da executiva na próxima terça-feira. Essa comissão vai receber um estudo preliminar feito pelo tesoureiro Pimentel (deputado José Pimentel, PT-CE) que vai projetar as próximas ações do partido. Esperamos que possamos já ter uma agenda de reunião com os ministros do PT, para iniciarmos um diálogo com eles, e marcar um debate no diretório nacional.O senhor disse no domingo que espera mais denúncias contra o PT. Elas seriam reais ou fruto de uma armação?TARSO: Não só o PT, mas também o governo. Mas não acho que sejam de uma armação, não. Acho que é produto de uma situação política interna do partido e eventuais procedimentos irregulares, que às vezes são maximizados. Acho que temos que recolher todas essas informações que vocês falam e agradecer a quem faz as denúncias. É a partir delas que reconstruiremos o partido.Então realmente será necessária uma depuração?TARSO: Não gosto desta palavra depurar, porque ela lembra o stalinismo. Mas temos que organizar a vida interna do partido, tornando-a mais transparente, acolhedora e inclusive mais democrática internamente.Mas vai implicar mais baixas no partido?TARSO: Aí, depende. Talvez ocorra uma maior agregação também. Agora, quem tiver responsabilidade, terá que responder.No domingo o senhor disse também que o PT trataria com os ministros da correção dos rumos e do planejamento deste último período do governo. Afinal, o PT vai tentar corrigir rumos em quais áreas do governo?TARSO: Não, o PT não tem o poder de alterar os rumos dos ministérios. O que nós vamos fazer é estabelecer um regime de colaboração mais estreito.Vários setores do PT cobram hoje um correção dos rumos da economia. Em nome da conciliação interna, o senhor vai chamar o ministro Palocci (Fazenda) para um debate?TARSO: Não temos esse poder sobre os ministros.Qual é a sua opinião sobre a política econômica? Ela deve ser reformulada?TARSO: Eu sustento que a função do partido é avaliar a situação atual e projetar o que se pretende para o futuro. O meu juízo da política econômica é de que ela é importante à medida que trouxe a estabilidade macroeconômica, mas é necessário que o partido desenhe, se achar adequado, um processo de desenvolvimento. Porque a estabilidade macroeconômica, embora altamente positiva, ninguém defende, dentro ou fora do governo, que ela seja um fim em si mesma.E a política de alianças, tão criticada internamente no PT, deve ser alterada?TARSO: Acho que a política de alianças do governo precisa ser estudada. Não sou favorável à redução do espectro das alianças, mas acho que as lições que estamos tomando agora indicam que os canais que construíram essas alianças têm que ser reavaliados.Como no caso do PTB?TARSO: Eu não quero manifestar minha opinião.O senhor já tem conversado com o presidente Lula e amanhã viaja com ele para a França. Afinal, qual é o aconselhamento dele nessa reconstrução do PT?TARSO: O presidente gostaria de ver o PT profundamente renovado.O que significa isso?TARSO: Nas suas práticas políticas, na sua visibilidade pública, na sua forma de se relacionar com o estado. O presidente gostaria muito que isso ocorresse.Seria uma mudança completa do partido, não?TARSO: É que o partido cumpriu um ciclo até agora, que foi positivo, obteve a Presidência da República e é natural que haja um momento de crise. E essa crise demanda revisões muito importantes. É são essas revisões que vamos fazer: para que o partido seja mais democrático, tenha mais capacidade diligente e que tenha capacidade e sabedoria para fazer suas alianças de maneira adequada.Qual é o limite para a repactuação interna?TARSO: Meu entendimento é que a direção nacional deve adotar métodos de negociação mais amplos: decisões mais negociadas, incorporando uma participação mais forte da esquerda na elaboração da nossas posições. A maioria tem legitimidade e governa. Agora, tem que ter sensibilidade para assimilar contribuições das outras forças internas.Pode haver também uma reconciliação com os petistas punidos?TARSO: Se depender de mim, existe. Mas tem que ser fundamentada e colocada publicamente. E com vontade de ambas as partes.