Título: `ESSAS MEDIDAS DO PT SÃO FACTÓIDES¿
Autor: Evandro Éboli
Fonte: O Globo, 12/07/2005, O País, p. 12

Filha do novo presidente do partido, Luciana Genro diz que ações para moralizar serão burladas

Uma das parlamentares mais críticas do governo Luiz Inácio Lula da Silva, a deputada Luciana Genro (P-Sol-RS), ex-petista, não acredita que as coisas no PT vão mudar porque seu pai, o ministro da Educação, Tarso Genro, assumiu a presidência do partido. Luciana afirmou, em entrevista ao GLOBO, que seu pai será o ¿gerente de uma massa falida¿ e classificou de ¿factóides¿ as medidas que ele anunciou domingo para tentar limpar a imagem do partido.

O que a senhora achou de seu pai assumir a presidência do PT?

LUCIANA GENRO: Acho que ele será o gerente de uma grande massa falida. Embora tenha a reputação ilibada, ele não vai salvar o PT. Não é uma questão de trocar só dirigentes. O PT escolheu um caminho equivocado no governo com essa política de alianças onde a corrupção faz parte da gênese desse método. É impossível imaginar essa aliança com o PTB de Roberto Jefferson, o PP de Paulo Maluf e o PMDB de Jader Barbalho. Meu pai defende aliança até com o PSDB! Ele vai dar até uma cara mais digna para o PT, mas vai continuar tudo igual.

A senhora não acredita que as medidas anunciadas anteontem por ele e pelos novos dirigentes vão dar resultado?

LUCIANA: Essas medidas são factóides. É óbvio que esse tipo de coisa pode ser burlada (o livro agenda para os registros de reuniões e contratos do PT). Quem garante que todos os tipos de encontros serão anotados nessa agenda? Estão tentando criar fatos políticos.

Mas foi criada até uma comissão de ética para fiscalizar os atos de Delúbio Soares, Silvio Pereira e outros ex-dirigentes...

LUCIANA: Eu não acredito que o Delúbio Soares e o Silvio Pereira agiram por conta própria. Agiram em nome de uma maioria que dirige o PT. As investigações têm que atingir esse núcleo do partido e que irá chegar no presidente da República. Lula não é bobo e sabe o que está acontecendo com o partido que fundou e que é a sua principal expressão política.

Qual avaliação a senhora faz de Tarso Genro como ministro?

LUCIANA: Sou crítica dos projetos que o meu pai apresentou no MEC. O ProUni é a legalização da pilantropia. Faltam cursos noturnos. As universidades públicas estão caindo aos pedaços. Sou a favor das cotas, mas, nesse sistema, são inúteis. Na área da educação, o que o governo apresentou foi perfumaria com aura de democracia e debate.

Com opiniões tão divergentes sobre política e governo, como é o relacionamento entre a senhora e seu pai?

LUCIANA: Nós temos divergências políticas há muitos anos e aprendemos a conviver com elas. Na relação familiar, tentamos manter essa discussão fora. Não podemos discutir política no almoço de domingo, senão sai pancadaria.

Se a senhora pudesse dar conselhos a seu pai, recomendaria que ele continuasse à frente do Ministério da Educação ou defenderia que ele fosse para o comando do PT?

LUCIANA: Nenhum dos dois. Ele deveria sair do ministério e também do PT.