Título: MUÇULMANOS BRITÂNICOS SOB RETALIAÇÃO
Autor: Fernando Duarte
Fonte: O Globo, 12/07/2005, O Mundo, p. 26
Desde os atentados, mesquitas têm sofrido ataques apesar de apelos das autoridades
LONDRES. Embora as autoridades do Reino Unido, sobretudo o premier Tony Blair, tenham feito apelos à população britânica para não descontar na comunidade muçulmana do país sua ira pelos atentados de 7 de julho, diversos ataques a mesquitas foram registrados desde a sangrenta quinta-feira em Londres. Prédios religiosos muçulmanos foram alvos de depredações em Leeds, Belvedere, Telford e Birkenhead, enquanto o Conselho Muçulmano Britânico e outras mesquitas da capital receberam ameaças por e-mail ou telefone. Em Londres, a congregação de Mazirhul Uloom teve 19 janelas apedrejadas.
As polícias de outros municípios também receberam queixas de cidadãos muçulmanos que teriam sido agredidos física ou verbalmente ou sofrido ataques contra suas casas e automóveis. Com medo de mais represálias, universidades britânicas preparam uma cartilha com conselhos para estudantes muçulmanos, ainda mais depois de uma reportagem do ¿Times¿ ter denunciado um esquema de recrutamento em instituições de ensino por grupos extremistas em busca de novos ¿soldados¿ para atentados.
Mídia é acusada de fomentar tensão religiosa
Há cerca de 90 mil universitários muçulmanos no Reino Unido e, temendo por sua segurança, a Federação de Sociedades Estudantis Islâmicas (Fusis) distribuirá a cartilha pelas instituições de ensino superior. Ela terá conselhos sobre segurança pessoal, sobretudo o de informar a polícia sobre qualquer ameaça recebida. A Fusis acusa a mídia de fomentar tensões e pintar o quadro falso de extrema organização política de muçulmanos em universidades, sem falar na generalização de que tais grupos tendem ao radicalismo.
Ontem, num discurso no Parlamento, Blair voltou a fazer elogios à comunidade muçulmana britânica, estimada em 1,6 milhão de pessoas, ao dizer que os atentados em Londres não diminuíram a gratidão do povo britânico pela contribuição muçulmana para a diversidade cultural do país.
¿ Todos sabemos que a comunidade muçulmana anda lado a lado com as de outras religiões no Reino Unido. O fanatismo não é uma religião, mas sim um estado de espírito. Estamos orgulhosos dos muçulmanos por sua contribuição a este país e faremos com que a verdadeira voz do Islã seja ouvida ¿ afirmou o premier.
Blair disse que provavelmente os ataques foram obra de extremistas islâmicos e que ainda há 56 pessoas internadas. E acrescentou que vai acelerar a aprovação de leis de combate ao terror se isso for solicitado pela polícia. A legislação incluirá dispositivos duros em relação a clérigos muçulmanos radicais que incitem o ódio.
Ontem foi divulgada uma foto de álbum de família de Davinia Turrell, a mulher socorrida por um ex-bombeiro, que se tornou símbolo dos ataques ao ser fotografada com uma máscara no rosto. Também ontem, foram identificadas oficialmente as duas primeiras vítimas dos ataques. A primeira é Susan Levy, que viajava na linha de metrô de Picaddilly. Gladys Wundowa, que trabalhava como faxineira no College London, foi morta no ônibus.
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