Título: Prisão é criticada por senadores e empresários do mundo 'fashion'
Autor: Lydia Medeiros e Heloísa Marra
Fonte: O Globo, 14/07/2005, Economia, p. 24

Caciques do PFL reclamam, na tribuna, de ação arbitrária da Polícia Federal

BRASÍLIA e RIO.A Daslu, templo do consumo de luxo, quem diria, foi parar na tribuna do Congresso. Senadores do PFL usaram os microfones da casa para atacar a operação da Polícia Federal contra a loja multimarcas mais famosa - e cara - do país. Amigo da empresária Eliana Tranchesi, o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) criticou a invasão da loja e a prisão da sua proprietária. Argumentou ainda que a Daslu emprega centenas de pessoas e considerou a ação precipitada.

- Deveriam é abrir a sede do PT para ver o que existe lá e averiguar por que razão o filho do presidente recebeu dinheiro da Telemar - disparou o senador, referindo-se à sociedade entre a empresa de Fábio, filho do presidente, e a Telemar. E emendou: - Não estou defendendo qualquer irregularidade. Se existir, é preciso investigar e punir, mas não é dessa maneira, transformando o Estado brasileiro em Estado policial.

Fiesp também solta nota criticando ações recentes

O líder do PFL, José Agripino Maia (RN), foi outro que lembrou das irregularidades do PT para atacar a prisão de Eliana.

- A polícia tem dois pesos e duas medidas. A Daslu é um símbolo da desigualdade social? É. Mas lá vai quem quer e gasta como quer. Deve ser investigada. Mas a sede do PT não foi invadida. E supõe-se que de lá saiu o dinheiro que foi para malas e cuecas.

O líder da minoria no Senado, José Jorge (PFL-PE), também reclamou. Disse que o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares continua solto, enquanto Eliana Tranchesi foi detida.

A Fiesp também se manifestou. Sem mencionar a Daslu, divulgou nota criticando as prisões dos últimos dias. "A prisão antecipada, sem sentença, seja qual for sua natureza, só pode ter lugar para os infratores perigosos que ameaçam a ordem pública", diz a nota. A Fiesp classifica como espetáculo pirotécnico as ações recentes: "todos os crimes devem ser apurados e seus responsáveis punidos. Mas, o cidadão deve ter seus direitos individuais, previstos na Constituição da República, plenamente respeitados."

A notícia caiu como uma bomba no mundo fashion.

- Estou arrasada, em choque. Temos que esperar para ver qual é o tamanho do problema. Tenho o maior respeito por Eliana Tranchesi. Já rezei, já acendi vela. Ela carrega a bandeira do luxo no Brasil - disse a empresária Regina Lundgren.

Para o consultor de moda Julio Rego, a ação pode ser um desvio de foco da crise política:

- Apesar de dizerem que a investigação está sendo feita há vários meses, essa operação é uma retaliação política e uma maneira de desviar a atenção da CPI. Apreender os livros de contabilidade, tudo bem, agora invadir a casa da moça e levá-la presa foi uma arbitrariedade. Acusá-la de formação de quadrilha, um exagero.

- Recentemente fui à Daslu e quando estava lá dentro, pensando na situação política pela qual atravessamos, me perguntava: que país é esse? É inegável, temos que tirar o chapéu para a Daslu: é um show de consumo - disse o designer Zau Olivieri.

- No Brasil ninguém pode fazer sucesso sem ser punido. Existe aqui dentro essa ideologia de "vamos punir o sucesso" - rebateu a arquiteta Brunete Fraccaroli.

- Ninguém faz à toa uma empresa como a Daslu. Teve muito trabalho e competência - disse Fernanda Basto, autora do recém-lançado livro "Brasil".

Legenda da foto: OS SENADORES Pedro Piva e Antônio Carlos cumprimentam Sophia e Lu Alckmin na reinauguração da Daslu