Título: Economia e Bolsa Família seguram popularidade
Autor: Luiza Damé e Ciça Guedes
Fonte: O Globo, 14/07/2005, O País, p. 12

Especialistas citam também carisma e história de vida como responsáveis pelo bom desempenho do presidente, apesar da crise

BRASÍLIA e RIO. Especialistas em pesquisas atribuem a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se mantém em alta apesar da onda de denúncias contra o PT e o governo, ao carisma e ao patrimônio político construído nos últimos 30 anos. A população, avaliam cientistas políticos, se identifica com a história de Lula e o considera "um de nós". Somam-se aos atributos pessoais os resultados da economia e o alcance dos programas sociais, que beneficiam camadas de baixa renda, nas quais a popularidade de Lula é maior.

- A população tem um grau de identificação sociológica com o presidente. As pessoas acham que Lula é um de nós e criam uma rede de proteção e de boa vontade em torno dele - diz Paulo Kramer, professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB).

Pesquisa CNT/Sensus divulgada anteontem revela que a aprovação pessoal do presidente passou de 57,4% em maio para 59,9% este mês. A aprovação do governo foi de 39,8% em maio para 40,3% em julho.

Desvalorização cambial derrubou popularidade de FH

O diretor do Instituto Sensus, Ricardo Guedes, diz que a economia também foi decisiva para reeleger Bill Clinton nos EUA, apesar de Monica Lewinsky, e para dar o terceiro mandato ao primeiro-ministro Tony Blair, apesar do repúdio dos britânicos à participação na guerra do Iraque. Marcus Figueiredo, especialista em opinião pública do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), lembra que foi um desastre econômico que derrubou a popularidade do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no início de 1999.

- A desvalorização cambial fez com que a avaliação de ótimo e bom de Fernando Henrique caísse de 48% em dezembro de 1998 para 21% em fevereiro de 1999. A população identificou no governo o responsável por ter ficado 30% mais pobre - diz Figueiredo, que destaca o funcionamento dos programa sociais, como Bolsa Família e Bolsa Escola, que atingem cerca de 7,5 milhões de famílias, como importante para a percepção de que o governo funciona.

Segundo Marco Antônio Villa, professor de história da Universidade Federal de São Carlos (SP), Lula ainda não foi atingido porque tem "capital político acumulado" desde quando começou a atuar no movimento sindical no ABC paulista, no regime militar.

- São 30 anos de capital político e isso não se esvai da noite para o dia - disse Villa.

Para David Fleischer, professor de ciência política da UnB, as pesquisas mostram que aparentemente a população acredita que Lula não tem envolvimento com os escândalos e que ele é sincero ao defender a apuração das denúncias e a punição dos envolvidos.

Legenda da foto: TUMULTO NA AGÊNCIA da Caixa em São Gonçalo: centenas de pessoas foram ao banco buscar o cartão para sacar recursos do Bolsa Família