Título: CRISE POLÍTICA JÁ LEVA EMPRESAS A SEGURAR PROJETOS DE INVESTIMENTOS
Autor: Aguinaldo Novo
Fonte: O Globo, 16/07/2005, Economia, p. 22

Pesquisa em companhias abertas revela queda na intenção de novos gastos

SÃO PAULO. O dólar continua estável, o risco-país não saiu dos trilhos e a inflação está em declínio. Nem parece que o Brasil enfrenta uma de suas piores crises políticas. Mas se o retrato instantâneo é de estabilidade, também têm surgido sinais de que o imobilismo do governo frente às denúncias de corrupção pode trazer estragos ao país no médio prazo.

Pesquisa da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) mostra que diminuiu o apetite por novos investimentos. De 36 empresas consultadas, 22% falaram em ampliar seus gastos no segundo semestre, contra 60% na sondagem realizada no começo do ano. Além de razões como juros altos e desaceleração da economia, a entidade também cita a "incerteza do momento", representada pelo cenário político. Na dúvida, o empresário pisa no freio.

Novos atrasos na definição de normas e regras legais pendentes são outro risco debitado à crise política. Enquadram-se neste item projetos como a do fundo garantidor das Parcerias Público-Privadas (PPPs) e a licitação de novas usinas hidrelétricas. Adiados antes mesmo da atual crise, nenhum dos dois projetos têm ainda nova data para sair do papel.

- O país avançou muito nos últimos anos e é por isso que a economia está blindada contra a crise a curto prazo. Mas os prejuízos poderão aparecer mais à frente - diz o diretor-executivo do Iedi, Júlio de Almeida.

Nó na infra-estrutura também preocupa

A entidade, que reúne pesos-pesados da indústria nacional, teme que a crise deflagrada pelo deputado Roberto Jefferson se alongue até dezembro. O problema é que 2006 é ano de eleições e, de novo, o Executivo não teria espaço para avançar nos seus projetos.

- Calculo que grandes projetos de infra-estrutura possam não ser retomados antes de dois anos - disse.

Puxado pelas exportações, o Brasil viu a economia crescer 4,9% em 2004, mas o que também apareceu foi um país com infra-estrutura em frangalhos. Cerca de 74% das estradas federais estão em péssimo estado. Mais preocupante é a previsão de novo racionamento de energia. A consultoria MB Associados tem estudo mostrando que, mantido um crescimento de 3,5% do PIB nos próximos anos, o país poderá ter outro apagão já em 2008.

Em agosto de 2004, o governo anunciou a licitação, para o primeiro trimestre deste ano, de 17 usinas. As regras do novo modelo elétrico, criticado pelo setor privado, condicionam a licitação à expedição prévia de licença ambiental. Até agora, só uma está garantida.

Pendente desde 1999, também não saiu do papel o leilão de concessão de quatro mil quilômetros de rodovias federais. A última data era o primeiro trimestre deste ano. Esta semana, apareceu mais um obstáculo: o TCU suspendeu o processo por entender que o governo superestimou os gastos das concessionárias privadas.

- A dificuldade do governo é lançar essas licitações no momento em que ele próprio está sob suspeição - diz a economista Tereza Maria Fernandez Dias da Silva, diretora da MB Associados.

Pouco antes de estourar a crise, pesquisa da MB mostrava que só 42% dos projetos anunciados no segundo semestre de 2004 estavam em andamento (US$22,06 bilhões, do total de US$52,4 bilhões). O restante estava "em projeto" ou tinha "alta probabilidade" de nunca sair da gaveta. Agora, a consultoria diz que os projetos pendentes dificilmente serão confirmados a curto prazo.