Título: BANCO POPULAR ABRIU CONTAS SEM AVISAR CLIENTES
Autor: Geralda Doca
Fonte: O Globo, 23/07/2005, Economia, p. 23

Instituição usou cadastro da rede varejista Lojas Marabraz para inflar resultados na gestão de Ivan Guimarães

BRASÍLIA. O Banco Popular do Brasil (BPB) - braço do Banco do Brasil para o atendimento da população mais pobre - usou o cadastro de clientes da rede Marabraz, com 105 lojas de móveis no estado de São Paulo voltadas à baixa renda, para abrir contas e inflar os números da instituição, a um gasto de R$1,5 milhão por mês. De acordo com fontes ligadas à direção do BPB, na gestão de Ivan Guimarães foram abertas cerca de 300 mil contas sem que os clientes fossem avisados, entre novembro e dezembro de 2004.

Em novembro, quando Guimarães anunciou a parceria com a rede de varejo, que não chegou a ser concretizada, o banco tinha aberto um total de 543.780 contas. A carteira pulou para 1,050 milhão um mês depois, superando a meta fixada para 2004. Desse total, somente a metade chegou a ser movimentada em dezembro.

O uso do cadastro da Marabraz sem autorização dos clientes, considerado ilegal pelos órgãos de defesa do consumidor, foi confirmado por dois diretores da instituição.

- Tivemos acesso ao cadastro da Marabraz, mas não houve um contrato formal porque a parceira não chegou a ser concretizada - afirmou o diretor de Produtos e Crédito da instituição, Marcos Tadeu de Siqueira.

Ele não soube explicar por que a parceria não avançou e justificou que naquele momento era importante para o banco abrir contas para ter ganhos de escala.

- O cadastro da Marabraz foi usado - confirmou o diretor da área Administrativa e Financeira, Wagner Lacerda.

Fontes ligadas ao BPB disseram, ainda, que a intenção dos diretores era abrir as contas, cumprir a meta de um milhão de novos correntistas. Eles seriam informados posteriormente. Mas isso não foi feito e as contas permaneceram inativas.

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) diz que, embora essa seja uma prática comum no mercado, é ilegal e abusiva. O gerente jurídico da instituição, Marcos Diegues, ressaltou que uma conta inativa num banco pode resultar em dívidas resultantes de débito de tarifas. O ato, disse ele, pode ser denunciado ao Ministério Público Federal e o banco é obrigado a cancelar as contas.

Segundo Edila Moquedace, coordenadora-geral de supervisão e controle do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC) do Ministério da Justiça, esse tipo de conduta é um desrespeito e fere o Código de Defesa do Consumidor. A legislação estabelece que a abertura de cadastros, fichas, registros de dados pessoais e de consumo deve ser comunicada por escrito ao consumidor, quando não for solicitada por ele.

O número de pontos de atendimento também cresceu de forma extraordinária: pulando de 2.870 em novembro de 2004 para 5.530 no mês seguinte. Deste total, 800 foram fechados.No ano passado, a instituição teve um prejuízo de R$26,3 milhões, valor pouco maior do que o gasto com publicidade (R$26 milhões).

Ivan Guimarães foi procurado, mas não retornou os telefonemas. A assessoria de imprensa da Marabraz informou apenas que a parceria entre a rede e o banco não se concretizou.

Objetivo este ano é reduzir o prejuízo em 30%

Perdas do banco em 2005 podem chegar a R$112 milhões

BRASÍLIA. Depois da troca de comando no Banco Popular do Brasil (BPB), em abril, o plano de negócios e a estratégia da instituição estão sendo reformulados. A expectativa é reduzir em 30% o prejuízo de R$112 milhões estimado para este ano. Para isso, o banco vai cortar despesas. Além de investir na qualificação dos pontos de atendimento que estão funcionando bem e oferecer novos produtos aos clientes, em vez de aumentar o número de contas e de pontos.

Entre as novidades estão o seguro de vida popular, que será lançado no início de agosto, e a venda de produtos de consumo e de bens de produção por catálogo, que chegará ao mercado mais para o fim do mês.

Segundo o diretor de Produtos e Crédito do banco, Marcos Tadeu de Siqueira, o seguro será oferecido ao valor de R$12 semestrais e tem como público-alvo pessoas de baixa renda, entre 18 anos e 55 anos. Em caso de morte, a família terá direito a uma cobertura de R$ 2.500, mais um valor igual pra cobrir as despesas com o funeral. A expectativa da instituição é vender 120 mil apólices até o fim do ano. O seguro somente poderá ser feito por correntistas do banco e estará à venda em seus pontos de atendimento (padarias, loterias, redes de supermercados e farmácias).

Venda por catálogo terá taxa de juros de 2% ao ano

Já a venda de produtos por catálogo - a grande aposta do presidente do BPB, Geraldo Magela, que está prestes a deixar o cargo para concorrer às eleições em 2006 - vai permitir que a população mais pobre possa comprar eletrodomésticos (linha branca e marrom), além de equipamentos que possam gerar renda, como carrinhos para pipocas e cachorro-quente, e ferramentas.

A taxa de juros dessa modalidade de crédito será de 2% ao ano, com prazo de pagamento de 24 meses para bens de consumo e de 36 meses para bens de produção. O correntista interessado poderá escolher o produto nos pontos de atendimento e o pagamento será feito diretamente às lojas credenciadas pelo banco.

Novo presidente do BPB sai na semana que vem

A instituição está presente em todo o país, com 5.200 pontos de atendimento e 1,597 milhão de contas, sendo 1,272 milhão ativas. Desse total, cerca de 600 mil já tomaram empréstimos no banco.

Com a saída de Geraldo Magela da presidência do banco - o que deve ser anunciado na próxima semana - deverá ser indicado para o cargo um funcionário de carreira do Banco do Brasil. (Geralda Doca)