Título: Olho na CPI
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 06/08/2005, O Globo, p. 2

Se Marcos Valério e Roberto Jefferson não produzirem novos estrondos, alterando o curso das investigações, a CPI dos Correios começará agora a enfrentar o que o relator Osmar Serraglio considera seu maior desafio: desconstruir a versão do PT e de Marcos Valério de que a dinheirama usada para suborno de aliados e outras necessidades petistas saíram dos empréstimos bancários.

Ele prefere esta última definição pois está visto que o valerioduto socorria diferentes demandas políticas: não era um caixa dois eleitoral, como dizem seus operadores, nem apenas um fundo para pagar mensalão, como disse Roberto Jefferson. Pagava o que fosse preciso, de advogado a unha encravada. Quanto aos empréstimos, não é mesmo convincente a extrema liberalidade com que os bancos Rural e BMG abriram seus cofres, primeiro ao partido e depois às empresas de Marcos Valério. A não ser, é claro, que os empréstimos servissem apenas de biombo para o fluxo de outros recursos ilícitos - oriundos do setor público e ou de doações privadas encobertas por contratos fictícios. Esta comprovação é que desafia a CPI. Os empréstimos totalizando R$55 milhões apresentados por Valério praticamente cobrem o total de saques já identificados. Serraglio está convencido de que outros saques ainda vão aparecer, derrubando esta equivalência e confirmando a circulação de outros recursos. A conta da SMP&B numa agência do Banco do Brasil, por exemplo, mal foi examinada. E nela, para burlar a obrigação de informar ao Coaf as movimentações superiores a R$100 mil, teria havido uma profusão de pequenos saques, o que exigirá mais trabalho da CPI.

Para sair do dilema principal, o de achar os recursos adicionais, demonstrar a ocorrência de corrupção (nos Correios, está praticamente demonstrada e envolverá Roberto Jefferson), o relator aponta o roteiro das próximas semanas, que deve ser percorrido sem prejuízo dos depoimentos restantes. São eles:

1. O exame de todos os contratos das agências de Valério com órgãos públicos em busca de superfaturamento ou mesmo de não realização dos trabalhos. Não é fácil, dada a subjetividade da avaliação deste tipo de produto.

2. O exame das aplicações financeiras de oito fundos de pensão. Ontem o senador Jefferson Peres apontou o esquecimento do Refer, fundo de servidores de ferrovias estatais, onde também teriam ocorrido grosseiras operações com bancos de segunda linha, resultando em perdas para o fundo e ganhos para algum esquema político. É forte a crença de que neste veio a CPI encontrará diamantes.

3. O exame de todos os contratos das agências com clientes privados, em busca de entradas de dinheiro em valor maior que o contratado. As maiores suspeitas giram em torno da Usiminas - que o deputado Roberto Brant, do PFL, já apontou como doadora que teria usado a SMP&B como repassadora - , da Telemig e da Amazônia Celular (Banco Opportunity), clientes da SMP&B, da empreiteira Norberto Odebrecht e outros cinco grandes bancos.

Achar a fonte do dinheiro, eis agora a questão.