Título: Tarso ameaça jogar a toalha
Autor: Chico Oliveira/Ricardo Galhardo/Soraya Aggege
Fonte: O Globo, 09/08/2005, O País, p. 3
Pressão de Dirceu sobre o PT faz dirigente dizer que transição está ameaçada
Dois dias depois de ser atropelado pelo ex-ministro José Dirceu na reunião do diretório nacional do PT, o presidente interino do partido, Tarso Genro, ameaçou ontem renunciar à candidatura à presidência petista. Tarso disse preferir que Dirceu não tivesse participado da reunião e admitiu que ainda não conseguiu abrir a caixa-preta do partido, conforme noticiou O GLOBO na edição de domingo. A discórdia entre Tarso e Dirceu abriu uma nova crise nacional no PT, segundo vários dirigentes do partido.
¿ Ele (José Dirceu) tem o direito de participar da reunião, ele é membro da direção nacional, ele não foi expulso, não foi suspenso e não pediu licenciamento. Mas eu gostaria efetivamente que ele não tivesse participado ¿ afirmou Tarso em entrevista à Rádio Gaúcha de Porto Alegre.
A conseqüência da interferência de Dirceu na reunião foi precisamente o que mostraram os jornais, disse o presidente do PT:
¿ Quem está gerindo na verdade o futuro do partido ainda é a antiga maioria. Se isso aí permanecer, se esta visão permanecer, impede de fato uma transição com autonomia, soberania, com respeito a todas as posições. Isso aí pode impedir, até, a minha apresentação ¿ disse, referindo-se à sua candidatura à presidência do PT nas eleições de setembro.
Em São Paulo, numa coletiva, Tarso disse que a presença de Dirceu na reunião de sábado impediu a execução do plano de repactuar o partido:
¿ A presença do companheiro José Dirceu despertou em alguns companheiros uma relação de solidariedade despolitizada e de certa forma não contribuiu para o debate, para a reaproximação estratégica que nós queremos para o PT.
O senador Aloizio Mercadante (SP) conversou à noite com Tarso e decidiu intermediar um acordo para que ele fique na presidência do PT.
¿Vou conversar com ele novamente e mostrar a sua importância para o Campo Majoritário. Vou entrar nisso para apoiar Tarso ¿ disse.
Dirceu quer Berzoini no lugar de Tarso
Embora tenha dito em seu depoimento ao Conselho de Ética da Câmara que havia se afastado completamente do PT desde o início do governo Lula, em 2003, Dirceu mantém grande ascendência sobre o partido. Irritado com atuação do atual presidente do PT, o ex-ministro quer substituir Tarso pelo secretário-geral, deputado Ricardo Berzoini, na eleição para a presidência do partido, em setembro, segundo um interlocutor do ex-ministro da Casa Civil. Berzoini disse desconhecer a intenção de Tarso de desistir da candidatura.
¿ Para mim, Tarso não disse nada. Além disso, não há nenhum possibilidade de eu aceitar uma proposta dessas ¿ afirmou Berzoini.
Por trás do racha entre Tarso e o grupo de Dirceu está a polêmica petista em torno da política econômica do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O grupo de Dirceu alega que Tarso quer pôr o partido numa rota perigosa de colisão com Palocci. Na sexta-feira, Tarso fez um texto de resolução para o diretório nacional que foi barrado pelo Campo Majoritário. Motivo: ele exigia a redução dos juros e outras mudanças na economia.
Os assessores especiais de Lula que atuam no Campo Majoritário, Marco Aurélio Garcia e Luiz Dulci, além de Berzoini, convenceram Tarso a abrandar sua posição. Tarso queria atrair as correntes de esquerda que, desde o início do governo, tentam fazer com que o PT pressione o governo a mudar a política econômica.
Tarso também se isolou de outros setores, como o do ex-presidente José Genoino.
Em reuniões fechadas dentro do PT ontem, Tarso disse:
¿ Eu já achava que não deveria ser candidato e talvez realmente eu não esteja mais compatível.