Título: Aeroportos no limite
Autor: Geraldo Doca
Fonte: O Globo, 14/08/2005, Economia, p. 27-28

Falta de obras em 6 terminais, como Brasília e Congonhas, trava expansão do setor aéreo

Filas de aeronaves para decolar e pousar. Filas também no embarque de passageiros e atrasos constantes nos vôos. Este é o outro lado dos números positivos do setor aéreo, que nos últimos anos foi sinônimo de crise. Hoje, o segmento vai de vento em popa, mas a expansão da indústria ¿ que foi de 27,8% de janeiro a julho deste ano, segundo a Coppe/UFRJ ¿ está esbarrando na infra-estrutura dos terminais aeroportuários. De acordo com as autoridades da aviação civil, dois aeroportos brasileiros se aproximam do colapso e outros quatro enfrentam sérios gargalos.

Fazem parte desta lista os aeroportos de Brasília e Congonhas ¿ os que se encontram em situação-limite ¿ e os de Guarulhos, Goiânia, Vitória e Cuiabá, que necessitam de reforma urgente para atender ao crescente fluxo de aeronaves e passageiros. No Rio, os terminais de Santos Dumont e Galeão são dos poucos no Brasil que estão em posição confortável.

Dados do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) mostram que, em média, os aeroportos brasileiros têm capacidade para atender no máximo entre 30 e 35 operações de pouso e decolagem por hora nos horários de pico (entre 9h e 11h e entre 18h e 20h). Porém, há uma demanda reprimida de 10%: três pedidos de autorização de vôos deixam de ser atendidos, o que limita a expansão das companhias.

Restrições para novos vôos

A partir do próximo mês, o Aeroporto de Brasília ¿ usado pelas empresas como ponto de conexão para vários destinos, principalmente no Norte e no Nordeste ¿ deixará de ser um terminal livre, o que obrigará as companhias a seguirem horários apertados para pouso e decolagem nas horas de pico. Novos vôos nesses períodos também não serão autorizados. Em Congonhas, onde esse sistema já funciona, as regras serão ainda mais rigorosas, sendo aplicadas durante todo o dia.

¿ Estamos preocupados, pois há uma tendência de aumento no tráfego, que está ligada ao crescimento da economia e aos investimentos de algumas companhias, como Gol e TAM, que estão com planos de aumentar substancialmente suas frotas, e de novas empresas regulares, como a WebJet e a BRA ¿ disse o chefe do Departamento de Gerenciamento de Tráfego Aéreo do Decea, brigadeiro Airton Pohlmann.

Para dar conta do movimento em Brasília, o Centro de Gerenciamento de Navegação Aérea (CGNA), ligado ao Decea, limitou em 39 o número de operações de pouso e decolagem nos horários de maior concentração de vôos. Em Congonhas, o limite é de 48 operações, e em Guarulhos, de 54 aeronaves por hora.

Segundo o DAC, entre janeiro e julho, o movimento de passageiros nos aeroportos brasileiros atingiu 27,25 milhões, entre desembarques domésticos e internacionais. A previsão é fechar o ano com 40 milhões ¿ um crescimento de 20% em relação ao ano passado.

¿ Podemos dizer que o setor vive um boom ¿ disse Vladimir Lima da Silva, professor da UFRJ.

Segundo a diretora de Engenharia da Infraero, Eleuza Lores, o aeroporto de Brasília está saturado porque há apenas uma pista de pouso. Apesar de as obras da segunda pista estarem adiantadas, os problemas só serão resolvidos com a construção de um novo prédio de embarque e desembarque.

O gerente-geral de Infra-Estrutura da Varig, Wilson Roberto de Souza, afirmou que, com o congestionamento de tráfego em Brasília, a companhia está tendo um aumento de 20% no tempo de operação dos aviões, o que eleva os gastos com combustível.

¿ No fundo, o problema de congestionamento está associado às pistas. Em Congonhas e Guarulhos, por exemplo, apesar de existirem duas, elas não permitem operações simultâneas ¿ queixou-se Souza.

Brasil na contramão do mundo, diz UFRJ

Já a TAM reclamou da falta de ônibus no aeroporto de Brasília para transportar os passageiros que desembarcam longe do terminal. No caso da Gol, que transformou Brasília em um dos seus principais pontos de conexão, com o congestionamento do aeroporto em julho a companhia caiu de 94% para 89% no índice de regularidade do DAC. A BRA também reclama que os aeroportos de Natal e Fortaleza, principais pontos de chegada de turistas do exterior, são novos e modernos, mas não dão conta do movimento.

¿ Natal não consegue receber dois aviões de grande porte ao mesmo tempo ¿ disse o diretor de Planejamento da BRA, Waldomiro da Silva Júnior.

Para Respíscio do Espírito Santo Júnior, professor de Engenharia de Transporte Aéreo da UFRJ, a solução para os gargalos do setor está na administração individualizada dos aeroportos ou mesmo na privatização.

¿ O Brasil caminha no sentido contrário ao adotado em vários países do mundo ¿ avaliou.