Título: PRESSÃO CERRADA SOBRE BLAIR E A SCOTLAND YARD
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Fonte: O Globo, 18/08/2005, O Mundo, p. 27
Desmentido da TV inglesa à versão oficial da morte de Jean Charles causa reações
No dia seguinte à revelação do canal ITV de que eram falsas as informações das autoridades britânicas de que o brasileiro Jean Charles de Menezes usava casaco suspeito, correu da polícia e pulou uma roleta do metrô antes de ser assassinado por agentes policiais à paisana, a Scotland Yard e o governo do Reino Unido se viram sob uma barragem de críticas e cobranças ontem. Imprensa, advogados da família e ativistas de direitos humanos voltaram à carga para pedir o esclarecimento do caso e até a instauração de um inquérito público.
O escritório de advocacia que representa os parentes de Jean Charles pediu a demissão do comissário da polícia londrina, Ian Blair, que sustentara a versão desmentida pela ITV, que teve acesso a um relatório policial ainda em elaboração sobre a execução de Jean Charles no dia 22 de julho na estação de Stockwell.
O jovem eletricista mineiro foi atingido por oito tiros - sete deles na cabeça - dentro do metrô, no dia seguinte aos atentados fracassados de 21 de julho em Londres. Imagens de seu corpo exibidas anteontem contradiziam a versão da polícia de que ele usava um casaco pesado no qual poderia esconder explosivos e que levava uma mochila: não havia qualquer mochila e Jean Charles estava como uma jaqueta de brim. Além disso, ele não pulou a roleta em fuga: passou tranqüilamente e até parou para pegar um jornal gratuito distribuído no metrô, só correndo quando viu o trem na plataforma.
- Mostrou-se que a versão da polícia não somente era incorreta, mas que o público foi deliberadamente enganado. É evidente que nos contaram mentiras e meias-verdades sobre como Jean morreu - criticou Asad Rehman, porta-voz da campanha Justiça para Jean em Londres.
Rehman classificou a morte de Jean Charles de "execução ilegal" e pediu a suspensão da política de atirar para matar adotada pela polícia britânica após os atentados de 7 de julho, quando 52 pessoas foram mortas por terroristas no metrô e num ônibus em Londres. Ele também pôs na linha de tiro o comissário da polícia londrina, que inicialmente afirmara que o brasileiro não obedecera a ordem de parar dada pela polícia. O jovem na realidade foi agarrado quando já entrara no vagão e estava sentado num banco, levantando-se ao ouvir um agente gritar "polícia". Já imobilizado, ele foi morto. Um ex-comandante do Esquadrão Voador, uma unidade especial da Scotland Yard, disse que a posição do comissário Blair se complicou.
- Se os procedimentos normais tivessem sido seguidos, com um aviso sendo dado e oficiais usando roupas especialmente marcadas, esse jovem poderia não ter sido morto - comentou John O'Connor.
A advogada Harriet Wistrich, que representa a família do eletricista, disse que o importante agora é obter respostas para esclarecer por que informações errôneas sobre a morte do brasileiro foram divulgadas pelas autoridades.
- Sabemos claramente agora que Jean Charles não estava fazendo absolutamente nada para levantar qualquer suspeita, ele só teve a infelicidade de estar morando num prédio sob vigilância e de ser levemente moreno - argumentou a advogada.
Segundo o relatório da Comissão Independente de Reclamações da Polícia vazado para a ITV, uma das coisas que deram errado no fatídico dia foi que o oficial encarregado de identificar os suspeitos no prédio em Tulse Hill onde Jean Charles estava fora ao banheiro justo quando o brasileiro deixou o local. A Scotland Yard e o Ministério do Interior se recusam a comentar o relatório até que ele seja concluído.
E não foi só a polícia que ficou no centro do furacão com as revelações de anteontem: uma das testemunhas, que contara uma versão parecida com a das autoridades, também foi desmentida. Procurado ontem pela imprensa, Mark Whitby, de 47 anos, preferiu não se pronunciar.
A imprensa britânica adicionou novas interrogações. O "Guardian" assinalou a "enorme discrepância entre os relatos iniciais e a realidade" e chama a atenção para as falhas na comunicação entre os agentes de inteligência envolvidos. Já o "Daily Mail" pergunta em sua manchete: "Como erraram tanto?".
Ontem, o "Financial Times" disse que a polícia confundiu Jean Charles com o etíope Hamdi Issac, identificado no Reino Unido como Hussain Osman, suspeito dos atentados do dia 21 cuja extradição já foi concedida pela Itália.
Legenda da foto: A IMPRENSA VOLTA à carga: as manchetes dos jornais ingleses ontem destacaram as revelações do caso Jean Charles, pondo polícia e autoridades contra a parede. "Como erraram tanto?", perguntou o "Daily Mail", enquanto o "Daily Telegraph" diz que "Documentos vazados expõem a verdade sobre morte de brasileiro".