Título: PARA MEIRELLES, `CRISE POLÍTICA AJUDA¿
Autor: Carlos Vasconcelos
Fonte: O Globo, 24/08/2005, Economia, p. 24

Presidente do BC diz que nunca economia brasileira foi tão resistente

NOVA YORK e SÃO PAULO. O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, disse ontem, em Nova York, que a crise política ajudou a mostrar a consistência e a resistência da economia brasileira. Em café da manhã com investidores, ele afirmou que os bons fundamentos econômicos têm possibilitado ao Brasil um desempenho positivo mesmo em meio a adversidades:

¿ Nesse sentido, a crise política ajuda. A crise em si não é boa, mas ajuda no sentido de que a economia continua.

Apenas no fim de uma palestra para empresários e analistas financeiros de Wall Street Meirelles se referiu à crise política, classificando o discurso do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, de ¿muito, muito importante¿ por reafirmar o compromisso do governo com a austeridade monetária e fiscal. Ele depois explicou a jornalistas brasileiros sua visão sobre o lado bom da crise:

¿ A crise política certamente é um dado negativo. Mas tem uma vantagem: mostra a capacidade do país de enfrentá-la porque tem uma economia menos vulnerável.

Ressaltando que nunca a economia brasileira foi tão resistente, Meirelles considerou natural a oscilação do câmbio ao sabor do noticiário político, comentando que em qualquer lugar do mundo o mercado reage às incertezas. Mas afirmou que a volatilidade atual dos ativos brasileiros está mais próxima dos padrões internacionais do que no passado, quando uma crise política se transformava rapidamente em econômica:

¿ Nenhuma economia é invulnerável. O mercado sempre reage. O que importa é o grau da volatilidade, e isso está caindo consistentemente, o que reflete a melhora dos fundamentos da economia brasileira.

Fishlow: persistência macroeconômica é blindagem

Ontem, Meirelles teve um almoço no Federal Reserve (Fed, o BC americano) de Nova York e garantiu que houve poucas perguntas sobre a crise política:

¿ O que se discute são os efeitos na economia.

Segundo Meirelles, a crise pode ter feito empresários adiarem investimentos, mas os dados da produção industrial de maio e junho mostram que a economia continua crescendo. Ele admitiu, porém, que a taxa básica de juros (Selic) continua alta, porque ainda há incerteza sobre a trajetória da inflação.

Para o professor Albert Fishlow, da Universidade de Columbia e do Center for Brazilian Studies, foi precisamente a manutenção da política de controle da inflação por mais de uma década, a partir da adoção do real, que garantiu que o país atravessasse a atual crise política sem turbulência econômica. É a essa persistência macroeconômica que Fishlow atribui a blindagem que tem preservado a economia.

¿ É a primeira vez na História que há uma continuidade na política de estabilização, e hoje há uma maturidade no sistema econômico brasileiro. Todos entendem que inflação baixa é do interesse nacional, não de um partido ou de outro. O mesmo ocorre em relação ao crescimento e à expansão do comércio internacional. É um avanço ¿ disse Fishlow em seminário ontem em São Paulo.

Ele admitiu ter errado ao criticar o BC pela demora na redução dos juros, já que a inflação está convergindo para a meta de 5,1%. Outro dado que o surpreendeu foi que, apesar da crítica generalizada aos juros altos, o país está crescendo mais de 3% e as empresas continuam investindo.