Título: DO CORDEL AO FREVO 'CUECÃO DO MENSALÃO'
Autor: Letícia Lins
Fonte: O Globo, 28/08/2005, O País, p. 10

Crise política vira mote para os poetas do Nordeste, que batem nos políticos, criticam o governo e o PT

RECIFE. Vergonha para os políticos, frustração para os brasileiros, as denúncias que mobilizam três CPIs no Congresso viraram mote para os poetas de cordel do Nordeste. Eles têm cantado em versos a revolta com escândalos como o do mensalão e o medo de que tudo acabe em pizza. O assunto também motiva compositores de tradição lírica, como é o caso do pernambucano Jota Michilles, que compôs o "Cuecão do Mensalão". O frevo acaba de ser gravado pelo multiartista Valmir Chagas, mais conhecido em Pernambuco como Véio Mangaba, personagem picaresco que mobiliza multidões com um pastoril cheio de deboche. O frevo está tocando nas rádios de Recife e é promessa de sucesso no próximo carnaval.

Os protestos dos poetas do cordel e da viola também chegam de vários lugares. De Juazeiro do Norte (Ceará), Lajedo (Pernambuco) ou mesmo da periferia da região metropolitana, como do bairro popular de Casa Amarela (na capital) ou Ouro Preto (em Olinda). Na última Feira de Literatura do Recife autores populares se revezaram ao microfone recitando décimas, sétimas e sextilhas, tudo contra o mensalão, a corrupção, o dinheiro na cueca, o "milhão" sobrando na mão de deputados e senadores. Mas, no caso do pobre, faltando para o pão. Autor de frevos que ficaram famosos na voz do cantor Alceu Valença - como "Roda e avisa", "Bom demais" e "Diabo louro" - Michilles deixou seu tradicional romantismo depois de acompanhar a corrupção que tem movimentado Brasília.

"De quem é esse dinheiro/ Dentro do seu cuecão/ É do mensalão, é do mensalão/ A turma do jabaculê/ Não dá mole não/ Tá careca de comer/ Do mensalão/ É milhão prá lá/ É milhão prá cá/ Escondido na mala/ E na cueca prá enganar/ É lelê de todo jeito/ E desse jeito seu Lalá/ A CPI vai te pegar", canta o Véio Mangaba, em um CD single enviado para as rádios locais e que motiva pedidos de bis dos ouvintes quando é executado.

- A minha linha sempre foi muito crítica e essa crise caiu como uma luva para o meu repertório. Não se trata de oportunismo, mas de oportunidade do artista para cumprir com seu papel enquanto ouvidor e porta-voz da população. O espírito é brincalhão, mas não deixa de ser um ato de indignação - diz Véio Mangaba, 45 anos, 15 de carreira, dezenas de espetáculos e cinco CDs no currículo, um dos quais pelo selo Geléia Geral de Gilberto Gil, ministro da Cultura.

No bairro de Casa Amarela, zona norte de Recife, o poeta Davi Teixeira comemora o sucesso do seu cordel "Mensalão: um vírus no Brasil", em cuja capa pôs uma xilogravura de um político com duas faces, uma de costas para a outra.

- Desde criança meus pais diziam que político tem duas conversas e duas caras. Eles prometeram mudanças e realmente o país mudou mesmo. Mas para roubar mais - reclama em seu pequeno ateliê, no Alto do Genipapo, em Casa Amarela, zona norte da capital.

Em Lajedo, a 196 quilômetros de Recife, o poeta popular Adeizo Santos distribuiu nas feiras do agreste o folheto de cordel "O Povo e o Mensalão", no qual põe em dúvida até mesmo a honestidade dos membros das CPIs: "O povo do meu Brasil/ Se liga na televisão/Vê o locutor falando/ Em um tal de mensalão/ CPI mais CPI/ Ladrão trombando com ladrão".

Neto de violeiro e habituado a se comunicar com seus eleitores através de versos e rimas comuns à literatura popular do Nordeste, o líder do PT na Câmara, Fernando Ferro, também não resistiu e aderiu aos folhetos de cordel para dar sua versão da crise política. Adversário do Campo Majoritário (tendência do partido à qual pertence a maior parte dos petistas envolvidos nas denúncias) o pernambucano usou um mote curioso: "Não há pior assassino que o assassino de sonhos" no livreto com o título "Quero o meu PT de volta". São doze estrofes de sua autoria.

"Quem plantou e viu nascer/ E quem também fecundou/ Quem investiu e zelou/ Para tudo acontecer/ Não se pode conformar/ Com este fim tão vulgar/Destroçando tantos sonhos/ Vendo o PT sem destino/ Não há pior assassino/ Que o assassino de sonhos", diz o representante da tendência Movimento PT. E acrescenta: "É tão grande o sofrimento/ De toda a nação petista/ Vendo corruptos na lista/ Surgindo a todo momento/ Com parte da direção/ Que entrou na perdição/ E com bandidos estranhos/ Nos deixando em desatino/ Não há pior assassino/ Que o assassino de sonhos".

Os versos foram gravados pelo cantador Ronaldo Aboiador, reproduzidos em CDs e enviados a todas as rádios comunitárias do estado.

- É um recado de tristeza, revolta e também de esperanças, pelos que nos traíram na confiança e tanto prejudicaram a bela e heróica história do PT - afirma Fernando Ferro.

Legenda da foto: VÉIO MANGABA: estilo crítico