Título: MASSA FALIDA
Autor: Antônio Carlos Biscaia
Fonte: O Globo, 01/09/2005, Opinião, p. 7
A esperança por dias melhores que há menos de três anos venceu o medo e levou o país a uma euforia cívica não pode morrer agora, já que aquela não foi a última tentativa das pessoas de bem de lutar por um Brasil decente.
É certo que o golpe baixo de alguns dirigentes petistas pegou de surpresa 800 mil militantes partidários e 53 milhões de eleitores, mas para quem já sobreviveu a crises políticas muito graves, o medo de que este país não tenha mais solução não pode matar a esperança de que nem tudo está perdido.
Antes de tudo, temos de ter em mente que o voto é ainda a única arma democrática que temos para punir erros e corrigir rumos. E a punição tem de começar pelo próprio Partido dos Trabalhadores, cujos dirigentes atuais ainda não tiveram a compreensão do que está acontecendo com o partido e, apesar da gravidade da crise interna, insistem em manter o poder e proteger envolvidos em atos ilícitos.
Um partido que já puniu filiados por simples entrevistas à imprensa ou por uma votação que estava de acordo com a manifestação de consciência, não pode se manter estrategicamente omisso diante de companheiros que, documentalmente, são apontados como destinatários do recebimento de importâncias ilegais e de origem duvidosa. Trata-se de uma incoerência inaceitável.
Não custa lembrar que não foi o PT que traiu militantes e eleitores, mas sim dirigentes que, numa infidelidade indecente, revelaram-se corruptos a serviço de um projeto de poder que somente beneficiaria ambições pessoais e, nunca, a população brasileira como prevê os princípios ético-sociais que deram origem ao partido.
Assim como militantes e eleitores se sentem traídos, nós, parlamentares petistas, nos sentimos também envergonhados do comportamento antiético e até criminoso de alguns poucos companheiros. E essa vergonha nos persegue na rotina do cotidiano. No Rio de Janeiro, veículos que circulavam orgulhosamente com o adesivo "oPTei", agora trafegam com o "corruPTo", o que nos atinge indelevelmente.
Quem diria: o PT que era o símbolo da ética, hoje é tido como corrupto para a satisfação, quase êxtase, de uma oposição irresponsável que torce contra o governo por vislumbrar a chance de retomar o poder que lhes escapou das mãos depois de décadas de coronelismo político.
Se o voto ainda é a grande arma democrática, que pelo voto se expurgue do Partido dos Trabalhadores os dirigentes e os parlamentares coniventes com o esquema de corrupção. Com 30 anos de atuação como procurador de justiça no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, considero sólidas e definitivas as provas de associação criminosa para a prática de diversos delitos, que vão de corrupção à sonegação, à lavagem de dinheiro, a crimes contra o sistema econômico-financeiro.
Como prova documental, recibos, depósitos, transferências bancárias e listagens de comparecimento a agências bancárias suspeitas, provas inquestionáveis, pouco a pouco confirmadas por outras testemunhais. Além disso, as doações não declaradas não são meras informalidades ou irregularidades de campanha, como sustentam alguns, mas crimes eleitorais. E a definição jurídica das condutas criminosas é atribuição privativa do Ministério Público.
O nosso presidente Lula ainda precisa demonstrar em suas falas a necessária indignação contra práticas de companheiros que feriram gravemente seu partido. Seus 53 milhões de eleitores e os 800 mil militantes que o ajudaram na eleição continuam aguardando seu desabafo com a esperança de que ainda é possível se expulsar do PT os traidores, expurgar dos seus quadros a corrupção e provar que o partido ainda tem moral para lutar por um país mais honesto e decente.
Como integrante do grupo de 21 deputados federais petistas que integram o bloco parlamentar "PT Livre", defendo a imediata e sumária expulsão dos dirigentes que ainda não se afastaram e a instauração de processo disciplinar pela Comissão de Ética contra todos os deputados do partido envolvidos em atos ilícitos.
E pelo voto democrático os filiados petistas devem aproveitar o Processo de Eleição Direta (PED) do próximo dia 18 de setembro para eleger, por consenso, os novos dirigentes partidários sem vínculos com os grupos que traíram o presidente, os militantes e os eleitores, evitando, assim, que o Partido dos Trabalhadores (PT) se transforme numa grande massa falida da ética política que, inevitavelmente, ficará registrada na História do país como uma herança do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
ANTÔNIO CARLOS BISCAIA é deputado federal (PT-RJ).