Título: Chefe de gabinete de Palocci deixa o cargo
Autor: Jailton de Carvalho
Fonte: O Globo, 02/09/2005, O País, p. 11

Um dia depois de prestar depoimento à CPI dos Bingos, Juscelino Dourado deixou ontem o cargo de chefe de gabinete do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. No início da noite, o ministério divulgou cópias de cartas trocadas entre Palocci e Juscelino, mas os textos não explicam os motivos da saída. Em sua passagem pela CPI, Dourado confirmou que mantinha estreitas ligações com o advogado Rogério Buratti, acusado de intermediar o recebimento de uma propina da empresa americana Gtech, interessada num contrato de R$650 milhões com a Caixa Econômica Federal.

Na carta de 16 linhas dirigida a Palocci, a quem chama de companheiro, Juscelino nega ter cometido qualquer irregularidade e diz que sempre foi leal ao ministro. ¿Tenho segurança da firmeza com que lidei com os assuntos de minha responsabilidade (...) Estou com a consciência tranqüila de que realizei minha missão, de que não fugi do caminho ético que sempre norteou e norteará a minha vida¿, diz.

¿Sua atividade pública deve ser motivo de orgulho¿

Numa resposta de oito linhas, Palocci afirma que entende a decisão de Juscelino de deixar o ministério e voltar a Ribeirão Preto. ¿É com respeito e compreensão que aceito esta sua decisão. Tenho absoluta certeza da seriedade e lisura com que você lidou com os assuntos de sua responsabilidade. Sua atividade pública deve ser motivo de orgulho para você e sua família¿. O ministro sustenta também que não tem dúvida da lealdade do ex-assessor: ¿Sou testemunha da lealdade, dedicação e competência com que desempenhou suas funções em todos estes anos¿, e se despede do ex-assessor com ¿um abraço do amigo¿.

Num depoimento de aproximadamente seis horas à CPI dos Bingos na quarta-feira, Juscelino confirmou que mantém laços de amizade com Rogério Buratti. Com a quebra do sigilo telefônico de Buratti, a CPI descobriu que os dois tiveram várias conversas, algumas delas no Ministério da Fazenda. Ele admitiu que se encontrou com Buratti no ministério.

Juscelino disse também que o ex-assessor da presidência da Caixa Ralf Barquete pediu, no primeiro semestre de 2003, uma audiência com Palocci. Barquete teria dito que queria tratar de assuntos da Caixa com o ministro. Juscelino diz que Palocci rejeitou o pedido. Naquele período, estavam em curso as negociações para a renovação de um contrato de R$600 milhões entre a Caixa e a Gtech.

O presidente do grupo Leão & Leão, Luiz Cláudio Leão, foi indiciado ontem por formação de quadrilha e anunciou seu desligamento do cargo. A empresa é suspeita de ter pagado propinas à Prefeitura de Ribeirão Preto na gestão Palocci.

COLABOROU Evandro Spinelli, especial para O GLOBO