Título: PAÍS ADMITE DAR MAIS PRAZO À ARGENTINA
Autor: Eliane Oliveira
Fonte: O Globo, 03/09/2005, Economia, p. 28

Parceiro do Cone Sul quer adiar liberalização do mercado automotivo

BRASÍLIA. O Brasil já admite adiar, mesmo a contragosto, a liberalização total do comércio de veículos e autopeças com a Argentina prevista para janeiro de 2006. Os argentinos insistem na postergação do fim das limitações, conforme previsto no acordo automotivo do Mercosul em vigor desde o final de 2001, sob o argumento de que seu mercado não tem condições de suportar as importações de automóveis brasileiros.

Mas o adiamento não será nada fácil para as autoridades argentinas, que revelam, informalmente, preferir uma postergação até pelo menos 2008. Os negociadores brasileiros, que já tiveram duas reuniões recentes com os argentinos e marcaram um novo encontro para o fim deste mês, tentarão convencer os técnicos do país vizinho que uma prorrogação seria um golpe terrível para Mercosul, pois o bloco passaria um mau sinal aos investidores internacionais.

- Há investimentos sendo disputados no mundo e o Mercosul não pode perder essa oportunidade. O acordo Brasil-Argentina tem como pano de fundo uma lógica de competitividade mundial, que é a criação de um pólo de produção e exportação. Estamos competindo com a China, que produz 5 milhões de carros por ano, e a Europa Oriental. Problemas conjunturais não podem pautar a questão estrutural - disse ao GLOBO o secretário de Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Antônio Sérgio Martins Mello, que chefia as negociações pelo Brasil.

Os argentinos usam os números do comércio bilateral para justificar a aflição. Enquanto o Brasil deverá exportar 200 mil veículos para a Argentina em 2005, o país venderá ao mercado brasileiro 50 mil unidades. A produção brasileira é de 2,4 milhões de unidades por ano e a argentina é de 300 mil. Como a Argentina tem um mercado de 400 mil veículos, 50% deles são brasileiros.

A negociação, que começou no mês passado, ainda está em nível técnico. No entanto, deverá ganhar um tom político, caso não haja um acordo até 30 de novembro, quando os presidentes brasileiro e argentino, Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner, se encontrarão para discutir a situação do Mercosul. Lula dirá a Kirchner que o Brasil quer aumentar, no âmbito do bloco, o patamar de produção, atrair mais investimentos e promover uma modernização industrial.

- Na hipótese de não haver acordo, vamos negociar por quanto tempo as regras atuais serão prorrogadas. É claro que precisamos diminuir as assimetrias que existem entre um e outro país. Nosso propósito é que haja um crescimento harmônico para os dois países na produção de veículos - disse o secretário.

Pelas regras atuais, para cada cem dólares exportados, o país pode importar 260 dólares do parceiro sem pagar a tarifa de importação (35%). Se, em anos anteriores, a balança era favorável à Argentina em termos de receita, desde 2001 o quadro virou a favor do Brasil. Pesa o fato de as indústrias automobilísticas argentinas terem se especializado em carros de médio porte e luxuosos, enquanto as montadoras brasileiras investiram no carro popular.

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