Título: OSAMA E KATRINA
Autor: Dan Balz
Fonte: O Globo, 08/09/2005, O Mundo, p. 19
No dia seguinte ao 11 de Setembro, eu estava em Jerusalém e fui entrevistado por uma TV israelense. O repórter me perguntou: ¿Você acha que o governo Bush é capaz de responder ao ataque?¿ Se minha memória não me falha, respondi: ¿Claro. Posso assegurar que eles sabem como puxar o gatinho.¿
Foi apenas uma reação instintiva de que George W. Bush e Dick Cheney eram as pessoas certas para lidar com Osama. Não era só eu que pensava assim e, como resultado, Bush recebeu quase que um cheque em branco para comandar o 11 de Setembro que não recebera nas eleições. Infelizmente, ele usou esta permissão não apenas para enfrentar terroristas mas para colocar em prática uma agenda conservadora radical ¿ impostos, células-tronco, meio ambiente, tratados internacionais ¿ que não saía do lugar antes do 11 de Setembro. Neste sentido, o 11 de Setembro distorceu nossa política e nossa sociedade.
Bem, se o 11 de Setembro é uma ponta da linha do governo Bush, o Katrina é a outra. Se Bush-Cheney parecia a equipe certa para lidar com Osama, é a dupla mais errada para lidar com o Katrina ¿ e todas as prioridades erradas que ele expôs ao país.
São pessoas muito melhores em causar dor do que senti-la, melhores em dividir as coisas do que em reuni-las, melhores em defender o ¿projeto inteligente¿ como teologia do que praticá-la como uma política pública.
A frase padrão de Bush é: ¿o dinheiro não é do governo, é seu¿, e ¿a última coisa que precisamos para nossa economia é tirar o dinheiro do seu bolso e alimentar o governo.¿ Talvez Bush diga agora: ¿O furacão não é do governo, é seu.¿
Além de destruir telhados, o Katrina varreu o argumento de que podemos cortar impostos, educar apropriadamente nossas crianças, competir com Índia e China, ter sucesso no Iraque, melhorar a infra-estrutura dos EUA, e cuidar de uma emergência catastrófica.
Muitas coisas que a equipe de Bush ignorou ou distorceu com o pretexto de combater Osama foram expostas pelo Katrina: sua recusa em impor um imposto à gasolina depois do 11 de Setembro, que poderia ter levado nossa indústria a produzir carros mais econômicos muito mais cedo, ajudar a levantar dinheiro para os dias difíceis e minimizar nossa dependência em relação aos piores regimes do mundo por causa de energia; sua recusa em desenvolver alguma forma de sistema de saúde para atender 40 milhões de pessoas sem acesso a ela; e sua insistência em cortar mais impostos, mesmo quando isso contribuiu para diques incompletos e um Exército pequeno demais para lidar com Katrina, Osama e Saddam ao mesmo tempo.
Como meu amigo Joel Hyatt disse, a filosofia da equipe de Bush desde o 11 de Setembro foi: ¿Estamos em guerra. Vamos festejar.¿
Bem, a festa acabou. Se Bush aprender as lições do Katrina, tem a chance de trocar seu mandato do 11 de Setembro por algo novo. Se isso ocorrer, o Katrina terá destruído Nova Orleans mas ajudado a recuperar os EUA. Se Bush voltar a sua política de sempre, sofrerá revezes a cada dia. O Katrina terá destruído uma cidade e uma Presidência.
THOMAS L. FRIEDMAN é colunista do ¿New York Times¿