Título: Imprensa denuncia censura a fotos de mortos
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Fonte: O Globo, 08/09/2005, O Mundo, p. 20

Agência proíbe presença de jornalistas em barcos de resgate e pede que não sejam feitas imagens de cadáveres

WASHINGTON. Quando as autoridades americanas pediram ao meios de comunicação que não fizessem imagens de mortos pelo furacão Katrina e seus efeitos estavam censurando uma parte fundamental da cobertura do desastre, afirmam organizações de defesa da liberdade de imprensa.

A medida adotada pela Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (Fema, na sigla em inglês) está na mesma linha que a proibição do governo para que não fossem feitas imagens dos caixões com a bandeira americana, trazendo os corpos dos soldados americanos do Iraque, disseram integrantes dos grupos.

¿ É impossível imaginar uma reportagem cujo tema é a morte sem permitir ao público que veja as imagens sobre o assunto ¿ reclamou Larry Siems, do PEN American Center, grupo de autores que defendem a liberdade de expressão.

Os jornais americanos, as emissoras de TV e os sites na internet têm mostrado imagens de corpos cobertos e túmulos improvisados em Nova Orleans. Mas ontem a Fema se recusou a levar repórteres e fotógrafos nos barcos de resgate nas regiões inundadas, dizendo que ocupariam um espaço valioso, necessário para a retirada das vítimas, e pediu para que não tirassem fotos dos mortos.

Num e-mail explicando a decisão, a Fema respondeu: ¿O resgate de vítimas está sendo tratado com dignidade e o máximo respeito e nós temos pedido que a mídia não faça fotos dos mortos.¿

Medida é convite ao caos, diz especialista

Rebecca Daughert, do Comitê de Repórteres pela Liberdade de Imprensa, achou a decisão inexplicável.

¿ É simplesmente impressionante a noção de que, quando há poucas informações da Fema, eles possam desperdiçar tempo preocupados com a possibilidade de o esforço de reportagem não estar de acordo com seus padrões de gosto ¿ disse. ¿ Você não pode escrever sobre um desastre e dar ao público uma idéia real de como ele é horrível se não vê que há corpos.

A política da Fema de excluir a mídia das expedições de resgate em Nova Orleans é ¿um convite ao caos¿, segundo Tom Rosenstiel, diretor do Projeto para Excelência em Jornalismo, parte da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia.

¿ A questão é a manipulação de imagens e não o gosto do público ou a dignidade humana ¿ disse Rosenstiel.

Para ele, a recusa da Fema em levar jornalistas significa que os profissionais irão por conta própria. Ele observou que a mídia americana, em especial a TV, reluta em mostrar corpos.

Já Mark Tapscott, ex-editor do ¿Washington Times¿, pensa diferente.

¿ Não vamos transformar a questão num caso de censura. Ninguém quer acordar e ver seu tio morto na primeira página.