Título: LAGOA DE MARAPENDI TEM MORTANDADE DE PEIXES
Autor: Tulio Brandao
Fonte: O Globo, 09/09/2005, Rio, p. 19
Comlurb recolhe quatro toneladas de savelhas mortas; Serla diz que esgoto `in natura¿ não é o maior problema
A Lagoa de Marapendi, na Barra, amanheceu ontem repleta de peixes mortos. Segundo a Comlurb, quatro toneladas de savelhas foram recolhidas e a expectativa é que a mortandade chegue hoje a dez toneladas. A Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (Serla) aponta como principal causa da morte a falta de circulação de água. Biólogos atribuem o problema sobretudo à alta carga de esgoto doméstico lançada na região. Segundo o biólogo Mário Moscatelli, nas lagoas da região são lançadas oito toneladas por segundo de esgoto sem tratamento. No canal que dá acesso à Lagoa de Marapendi, diz ele, a situação na maré baixa é grave:
¿ Com pouca água, o local se torna um valão de esgoto a céu aberto. Ali, a decomposição da natureza atua apenas como fator coadjuvante. O principal ator dessa tragédia é o governo do estado, que há 30 anos promete sem cumprir o saneamento da região.
Segundo a Serla, o problema é a água parada da Lagoa de Marapendi, que favorece o acúmulo de lama negra (matéria orgânica da natureza e do esgoto) no fundo. O material acumulado, revolvido por ondas e ventos, serviu de alimento para as algas, que se multiplicaram e consumiram o oxigênio. Com isto, houve a mortandade.
O presidente em exercício da Serla, Altamirando Moraes, disse que, em águas paradas, haverá mortandade até depois das obras de saneamento:
¿ O esgoto não é a causa principal da morte, e sim a má circulação da água. A solução é a abertura do Canal das Tachas, cujas obras estão paralisadas por divergências com o Ibama.
Hoje, a Comlurb vai retirar mais peixes mortos. Na operação, serão utilizados três barcos e 20 garis. O gerente operacional de limpeza da companhia, Jorge Fernandes, diz que o total de savelhas mortas pode passar de dez toneladas, se a mortandade continuar ocorrendo.
A bióloga Patrícia Mousinho, da ONG Ecomarapendi, afirma que a ocorrência da mortandade justamente na APA de Marapendi, que teve a legislação alterada para viabilizar a construção de eco-resorts, é um sinal de alerta:
¿ É um aviso para que o poder público não tome medidas naquela unidade sem estudos e análises criteriosas de impacto ambiental. E isso não foi feito.
Para o secretário municipal de Meio Ambiente, Ayrton Xerez, a mortandade simboliza a falta de atenção com a região:
¿ Se não houver saneamento da Barra, a construção na APA causará ainda mais impacto.
Segundo a Secretaria municipal de Meio Ambiente, a medição mensal nas lagoas da Baixada de Jacarepaguá registra 16 mil coliformes fecais por cem mililitros de água. Quando a análise chega a este valor, a secretaria pára a contagem, pois o índice já está muito acima do máximo permitido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente, que é de 800 coliformes fecais por 100 ml de água.
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