Título: `PODE HAVER POLARIZAÇÃO¿
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 25/09/2005, O Mundo, p. 44

Presidente adverte candidatos a respeitarem democracia

LA PAZ. Em junho, ele trocou a presidência do Supremo Tribunal de Justiça pela Presidência do país. Em meio à gravíssima crise que derrubou o ex-presidente Carlos Mesa, Eduardo Rodríguez assumiu com o objetivo de pacificar o país e comandá-lo até a posse de um novo presidente, em janeiro de 2006. Hoje a Bolívia vive em relativa tranqüilidade. ¿Sou um presidente emprestado, um simples patriota disposto a ajudar¿, disse ao GLOBO, no Palácio Quemado.

Percorrendo a cidade tem-se a sensação de que La Paz recuperou um pouco da paz perdida nos últimos meses...

EDUARDO RODRÍGUEZ: La Paz recuperou tranqüilidade com a mudança de governo, embora sigam pendentes muitas questões estruturais. Questões que se não forem atendidas por quem assumir o governo podem abalar esta paz. O importante é que os bolivianos entendam que protestos não são necessariamente o melhor remédio.

A Bolívia vive uma trégua?

RODRÍGUEZ: Gostaria de pensar que não se trata de uma trégua e sim de uma transição a tempos melhores.

Analistas afirmam que existe um perigoso cenário de polarização eleitoral...

RODRÍGUEZ: Existem visões diferentes sobre como resolver problemas comuns a ambos (Evo Morales e Jorge Quiroga) e a todos os candidatos. Pode haver polarização, no sentido de que as soluções propostas são muito diferentes. Mas considero que muitos dos problemas aceitam apenas uma solução, que é o desejo de conduzir governos democráticos. Se ambos aceitaram as regras do jogo democrático podemos minimizar o fantasma da polarização.

Tudo dependerá da atitude do vencedor...

RODRÍGUEZ: Não só do vencedor, também do perdedor. Deverão respeitar a democracia.

Cerca de 60% da população são indígenas e muitos consideram que chegou a hora de dar uma oportunidade à comunidade indígena de ocupar o poder.

RODRÍGUEZ: As regras da democracia são muito claras. Cada boliviano terá um voto. A quem favorecer esse voto será quem a população terá premiado com a confiança, independentemente do fato de que seja ou não uma pessoa indígena.

Quais os principais problemas do país?

RODRÍGUEZ: Muitos. Posso mencionar alguns, como a questão da terra. Avançamos muito com uma legislação que estabeleceu mecanismos cada vez mais transparentes. Mas este processo é complexo, caro e sensível. Outro problema é a questão dos hicrocarbonetos. A Bolívia tem a segunda maior reserva de gás do continente, aprovamos uma nova lei, cuja aplicação ainda depende de regulamentação. Mas ao mesmo tempo alguns operadores questionaram a lei e iniciaram processos contra o país. De acordo com a Constituição, os hidrocarbonetos foram, são e continuam sendo domínio do Estado. O problema surge em relação à intensidade da participação privada em contratos de exploração e comercialização.

O senhor chegou ao poder num momento de caos. Como fez para pacificar o país?

RODRÍGUEZ: Gostaria de destacar a atitude da população, sobretudo dos que por decisão própria deixaram de fazer o que estavam fazendo. Nos dedicamos a ouvir reclamações e buscar soluções. E a recuperar o conceito de vigência da lei.

O senhor parece estar sereno, apesar das circunstâncias.

RODRÍGUEZ: (risos) Nem sempre, às vezes fico de mau humor porque nos encontramos com situações complicadas. Mas estamos aqui para cumprir nosso mandato, fazendo um esforço, com as limitações de um governo transitório. Sou um presidente emprestado, um simples patriota disposto a ajudar.

A sensação que se tem é de que existe uma rejeição entre brancos e indígenas.

RODRÍGUEZ: Não podemos negar um crescimento do racismo. Mas temos de reconhecer que este é um país com alto nível de população mestiça. Reconhecer a diversidade será a única maneira de conviver.

Por que a Bolívia foi cenário de tantas revoltas sociais?

RODRÍGUEZ: Temos democracia há 23 anos, com indicadores importantes de participação da cidadania. O Legislativo é cada vez mais plural e hoje existem mais chances de termos um presidente indígena. Se preservarmos a democracia teremos menos episódios como os que tivemos recentemente, dependerá de nós. (J.F.)

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