Título: O lado mais escuro dos anos dourados
Autor:
Fonte: O Globo, 28/09/2005, O País, p. 14
Cronista do GLOBO nos anos 50, Thiago de Mello foi um crítico da onda de corrupção no Palácio do Catete
Ainda no início de sua carreira literária, Thiago de Mello, então com 26 anos, foi contratado pelo GLOBO para fazer parte de sua equipe de cronistas. Em sua coluna diária, Contraponto, ele atacou a imoralidade das autoridades
Bastou a publicação do seu segundo livro, ¿Narciso cego¿, para Thiago de Mello, então com 26 anos, chamar a atenção do GLOBO. Em 9 de fevereiro de 1953, o poeta amazonense estreava como cronista do jornal. Durante os dois anos e meio em que manteve a coluna Contraponto, Mello ¿ que, após o golpe militar de 64, teve que se exilar ¿ revelou-se um crítico contundente da política brasileira. Na crônica ¿Plano de salvação nacional¿, de 16 de março de 53, ele atacava o que acontecia ¿nos porões da governança¿.
¿Um amigo dizia-me ontem que o Brasil está com o gosto da dissolução. Tive de reconhecer que o amigo falou certo. É triste mas é a verdade. Enquanto o tempo vai dissolvendo as nossas pobres figuras, o Brasil dissolve o que existe de melhor dentro de nós. E assim dissolvidos vamos vivendo porque, como disse o poeta, a vida é uma ordem. O oco deixado pelo que se dissolveu é preenchido, então, pela tristeza, pela indiferença, pela maldade, pela vergonha, pelo ódio. Às vezes nunca mais é preenchido ¿ estes são os casos mais tristes.
Há os que não se dissolvem, reconheço. Ou então o dissolvente não lhes atingiu a esperança e o sonho. São os que ainda lutam pela salvação do Brasil. São poucos. Sobre as águas revoltas ou enganosamente tranqüilas, seus barcos parecem navios-fantasmas e suas palavras se perdem como pássaros grotescos e enlouquecidos.
Falei em `salvação do Brasil¿ e confesso que me venho policiando para não falar em `situação nacional¿, expressões que também foram dissolvidas, ficaram completamente isentas de significado e, o que é pior, jogam um colorido manto de ridículo sobre os incautos que as empregam. Não escondo minha admiração, e mesmo uma certa ternura, pelos que ainda gritam, pelos que não se querem entregar, pelos que chegam ao extremo de apontar soluções. Os estofos são diferentes, meus amigos.
Não obstante, ocorre-me agora uma solução. Perdoai-me. Meu plano, porém, não visa à salvação do país, mas à de seus habitantes, os brasileiros corroídos pelas águas federais. Talvez a ignorância nos salvasse, a ignorância completa da `situação nacional¿. Verdade é que não sabemos de tudo, não sabemos sequer a metade do que ocorre nos porões da governança. Mas já sabemos demais, para vergonha e humilhação nossa.
A solução que eu aponto ¿ talvez por impraticável ¿ é a extinção durante algum tempo de todos os jornais, revistas, estações de rádio, e tudo o que pudesse dar notícias do que acontece no país. (Concedo que os jornais falassem de assuntos estrangeiros, numa edição semanal, e as estações de rádio apenas tivessem programas musicais, baseados de preferência em nosso folclore). Os homens públicos poderiam agir à vontade: ninguém saberia de suas façanhas, e é bem provável que eles acabassem entediados. Saberíamos do que estava acontecendo no Norte por alguém que viesse de lá. Gente do Sul chegaria com as suas novidades. E tudo contado sem maldade, num encontro de rua ou durante um jantar. Passaríamos a cuidar de nossas vidas, e dar mais atenção à nossa casa, e botar mais amor em nosso coração, fruindo das coisas boas e simples que a vida tem para dar.
Digamos um silêncio de dez anos, ao fim do qual os jornais voltariam a dar as novas. Se fossem as mesmas de hoje, então que nos conformássemos de uma vez por todas, acabássemos com as ilusões, certos do que o Brasil já nascera condenado à perdição, pois assim esteva escrito no livro do destino. Mas as notícias também poderiam ser diferentes, e ninguém acharia um absurdo se O GLOBO surgisse com a seguinte manchete, redigida por mestre Pinheiro:
`O Brasil, exemplo de dignidade para o mundo! ¿ É de ordem, equilíbrio e moralidade a situação nacional!¿
Vejo agora que o meu plano tem o sério inconveniente de deixar-me no desemprego. Não faz mal. Pegaria um pau-de-arara que retornasse ao Nordeste e enfrentaria a seca, comendo xiquexique e mandacaru. O flagelo de lá é mais suave, pois a fome, a sede só corroem os corpos.¿
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