Título: Viegas sai atacando o Exército
Autor: Jailton de Carvalho
Fonte: O Globo, 05/11/2004, O país, p. 3

Opresidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou ontem a demissão do ministro da Defesa, o embaixador José Viegas Filho, depois de fazer segredo por duas semanas. O ex-ministro será substituído pelo vice-presidente José Alencar. Viegas pediu para deixar o ministério no dia 22 do mês passado, porque Lula se recusou a exonerar o comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, em meio à crise que se seguiu à divulgação, pelo ¿Correio Braziliense¿, de fotos identificadas como sendo do jornalista Vladimir Herzog. O general tentou, por duas vezes consecutivas, evitar rever o conteúdo básico da nota em que o Exército enaltecia o regime militar. Albuquerque só aceitou reconhecer os erros da ditadura e manifestar pesar pela morte de Herzog depois de receber ordem expressa do presidente. Irritado com a atitude, Viegas escreveu a carta de demissão (leia a íntegra na página 5) .

Viegas e Albuquerque vinham se desentendendo desde o ano passado. No texto divulgado ontem, de duas páginas, o ministro critica duramente a primeira nota do Exército sobre o caso Herzog e, deixando de lado a habitual moderação diplomática, pede a saída de Albuquerque, sem citar seu nome. ¿A nota divulgada (pelo Exército) domingo, 17 (de outubro), representa a persistência de um pensamento autoritário, ligado aos remanescentes da velha e anacrônica doutrina de segurança nacional, incompatível com a vigência plena da democracia e com o desenvolvimento do Brasil no século XXI. É hora de que os representantes desse pensamento ultrapassado saiam de cena¿, acusa o ex-ministro.

Em outro trecho do documento, Viegas considera exagero descabido o suposto ranço anticomunista do grupo de Albuquerque. ¿É incrível que a nota original se refira, no século XXI, a movimento subversivo e a Movimento Comunista Internacional¿. Na nota, divulgada em resposta à reportagem do ¿Correio¿, o Exército defendera o regime militar como uma reação ¿a um movimento subversivo que, atuando a mando de de conhecidos centros de irradiação do movimento comunista internacional, pretendia derrubar pela força o governo brasileiro¿.

O ministro não vê sentido nesse tipo de raciocínio. ¿É inaceitável que se apresente o Exército como uma instituição que não precise efetuar mudança de posicionamento e de convicções em relação ao que aconteceu (no regime militar)¿. Viegas reafirma que não foi consultado previamente sobre a divulgação da primeira nota e que seus autores deveriam assumir a responsabilidade por seu conteúdo. ¿É inaceitável que a nota use incorretamente o nome do Ministério da Defesa em uma tentativa de negar ou justificar mortes como a de Vladimir Herzog¿, acrescentou.

Na crise, questionário para o general

Viegas entregou a carta de demissão a Lula no dia 22, quatro dias após a divulgação da primeira nota. O clima se tornou insustentável na tarde de domingo, 17. Viegas cobrou, por escrito, explicações de Albuquerque sobre o texto do Exército. O ex-ministro fez um questionário com seis perguntas ao comandante e deixou claro que o ¿Exército brasileiro não deve falar em nome do Ministério da Defesa e das forças coirmãs¿.

Albuquerque teria tentado minimizar o problema numa conversa com o então ministro da Defesa. Sem outra alternativa, elaborou duas notas de retratação, ambas consideradas insuficientes por Viegas. Na primeira nota, o Centro de Comunicação Social do Exército ¿reitera que os fatos pertencem à História e que a análise isenta deles deve ser feita à luz da conjuntura existente¿. No segundo, o Cecomsex limita-se a reafirmar que ¿como repetidas vezes foi colocado, o passado é história. O que importa para a coesão nacional é olhar para o futuro¿. Em nenhum texto, o comando do Exército reconhece os erros, nem mesmo na morte de Herzog. O comandante só mudou de posição no dia seguinte.

Mas, ainda assim, a resposta não saiu ao gosto de Viegas. No terceiro texto, o comandante do Exército se dirigia ao presidente da República sem mencionar o chefe imediato, o ministro da Defesa. Novamente o texto foi modificado antes da divulgação. O comandante teria até encaminhado o texto ao Planalto sem passar pela análise prévia da Defesa. Viegas decidiu, então, pedir a demissão de Albuquerque a Lula.

O presidente tentou demover o ministro da idéia, mas não conseguiu. Viegas deixou claro que sua decisão era irrevogável. O presidente pediu, então, sigilo sobre o assunto até a escolha do sucessor. Lula não queria tensões internas no governo em pleno segundo turno das eleições municipais. Na manhã de ontem, numa reunião de pouco mais de 30 minutos, Lula comunicou a Viegas que Alencar seria o novo ministro da Defesa. Depois do encontro, Viegas pediu que fosse dada ampla divulgação à sua carta de demissão, para fugir da pecha de omisso ou medroso.