Título: NOBEL CONTRA AS ARMAS NUCLEARES
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Fonte: O Globo, 08/10/2005, O Mundo, p. 33

Prêmio da paz à agência de energia atômica da ONU e seu diretor causa polêmica

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e seu diretor, o egípcio Mohamed ElBaradei, ganharam ontem o Nobel da Paz, numa premiação que foi saudada pela maioria dos líderes mundiais e considerada por muitos um desafio aos Estados Unidos. Porém, grupos pacifistas, ecológicos e governos que discordam das práticas da entidade lamentaram a decisão da Comissão do Prêmio Nobel.

Nos últimos anos, a organização da ONU - criada em 1957 e responsável pelo combate à proliferação de armas nucleares - envolveu-se em polêmicas com a Casa Branca desde que a instituição afirmou que não havia produção de armas atômicas no Iraque, uma das principais alegações do presidente americano George W. Bush para legitimar a invasão do país em 2003.

- O prêmio serve como uma mensagem muito forte: continuem a fazer o que estão fazendo, sejam imparciais, ajam com integridade. E é isso que temos intenção de fazer - disse ElBaradei na sede da AIEA, em Viena, sob aplausos de seus funcionários. - Ter recebido este reconhecimento reforçará nossa determinação.

ElBaradei, diretor da AIEA há oito anos e que foi eleito mês passado para seu terceiro e último mandato de quatro anos, afirmou que a decisão foi uma surpresa, apesar de ele já vir sendo apontado como favorito. Ele disse que não esperava receber o Nobel por não ter recebido o tradicional telefonema dos organizadores antes do anúncio, prática que foi abandonada este ano para evitar o vazamento da informação:

- Foi uma surpresa total para mim. Estava assistindo à televisão com minha mulher convicto de que não ganharia por não ter recebido o telefonema. Então ouvi o nome da agência e o meu, que é igualzinho em norueguês. De repente, estava em pé abraçando e beijando minha mulher cheio de alegria e orgulho.

O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan - ele próprio vencedor do Nobel da Paz de 2001 junto com a ONU - elogiou a escolha, dizendo, através de uma nota, "desde 1957, a AIEA vem trabalhando de forma incansável e competente para evitar a proliferação de armas nucleares e para promover o uso pacífico e seguro da tecnologia atômica".

O presidente da França, Jacques Chirac, disse ter ficado encantado com o anúncio da premiação. O primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, e o chanceler federal da Alemanha, Gerhard Schroeder, também elogiaram a premiação.

Sobreviventes da bomba lamentam decisão

O governo americano disse ter gostado da escolha de ElBaradei, mesmo após ter tentado impedir sua reeleição mês passado, alegando que ele era muito suave com o Irã. A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, telefonou ontem para parabenizar ElBaradei.

Mas nem todos gostaram da premiação da agência. O governo iraniano oficialmente não fez comentários, mas fontes disseram que a premiação foi considerada uma "ação política direcionada contra o Irã". O país está sendo investigado pela AIEA há dois anos.

O grupo ambientalista Greenpeace criticou o prêmio, dizendo que deve ser recebido com cautela devido à defesa que a AIEA faz da energia nuclear para uso pacífico: "Ainda que ElBaradei tenha demonstrado sensatez na oposição à guerra do Iraque e à proliferação de armas nucleares, a AIEA é responsável também pela disseminação das mesmas tecnologias e materiais usados para a fabricação de armas nucleares."

O grupo japonês Hidankyo, que reúne sobreviventes das bombas de Hiroshima e Nagasaki, também não gostou, pois considerava que ele próprio deveria receber o prêmio. Segundo Terumi Tanaka, secretário-geral do grupo, a agência não luta pelo fim das armas nucleares:

- A AIEA não é uma organização que tenha feito atividades pacíficas.

Alguns especialistas concordam que a ação da AIEA não é pacifista, pois ela não pretende acabar com as armas nucleares, mas apenas impedir que novos países as controlem. Outros afirmam que a entidade não conseguiu prever a atual crise iraniana, que por 18 anos escondeu seu programa nuclear, nem evitar a conquista da tecnologia atômica do Paquistão e, possivelmente, da Coréia do Norte.

Casos recentes

Estas foram as principais controvérsias da AIEA nos últimos anos:

BRASIL: Os EUA pressionaram a AIEA para que ela fizesse inspeções-surpresa a instalações nucleares brasileiras, ano passado. O Brasil é signatário do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), mas não do Protocolo Adicional, que permite tais visitas. O governo brasileiro não permitiu inspeções sem aviso e o assunto foi dado por encerrado após visitas pré-programadas a instalações brasileiras em Resende.

EUA: Como diretor da AIEA, ElBaradei foi um dos maiores adversários da propaganda americana para convencer a comunidade internacional da necessidade da invasão do Iraque. ElBaradei afirmou que não havia instalações nucleares no Iraque. Após meses de ocupação, os EUA reconheceram isso.

PAQUISTÃO: O cientista Abdul Qadeer Khan, o pai da bomba atômica paquistanesa, reconheceu ano passado que vendeu segredos de armas nucleares para Irã, Coréia do Norte e Líbia.

IRÃ: O país escondeu por 18 anos um programa nuclear antes de ser descoberto pela AIEA. O Irã está sendo investigado há dois anos, mas até agora não foram encontradas provas de que exista produção de armas nucleares nem do contrário.

CORÉIA DO NORTE: Em 2002, o país disse possuir tecnologia para produzir armas atômicas e deixou o TNP.

Legenda da foto: OLE DANBOLT, presidente da Comissão do Nobel, anuncia o vencedor de 2005